
  Tempestade de Vero
     A Stormy Spanish Summer
Penny Jordan



       Sofisticao e sensualidade em cenrios internacionais.
      
      Unidos pelo dever, atrados pelo desejo...
      Felicity Clairemont havia viajado  Espanha para reivindicar sua herana. Infelizmente isso significaria gastar seu tempo com o duque Vidal y Salvadores. Afinal, 
com seu misterioso charme ele sempre deixara claro o que pensava a respeito dela. Na ltima vez em que Vidal a encontrou, as emoes foram fortes: ele percebeu que 
a odiava e a desejava na mesma medida. Mas agora sua honra exigia ajud-la. Quando a verdade sobre a famlia de Felicity se tornou pblica e a atrao revelou-se 
inegvel, poderia Vidal admitir o quanto estava errado a respeito dela?
      Somente a vingana manter aceso o fogo do desejo.
      
Digitalizao: Projeto Revisoras
Reviso: Gis Tolentino
       
      
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      Todos os personagens desta obra so fictcios. Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas  mera coincidncia.
      
      Ttulo original: A STORMY SPANISH SUMMER
      
      Copyright (c) 2011 by Penny Jordan
      Originalmente publicado em 2011 por Mills & Boon Modem Romance
      Arte-fmal de capa: Isabelle Paiva
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    CAPTULO UM
      
      
      
      
      - Felicity.
      No havia emoo na voz do espanhol aristocrata alto, moreno, de cabelos escuros olhando para ela de uma altura de pouco mais de l,80 m. Nenhum tipo de saudao 
para ela. Contudo, mesmo sem a reprovao e o desgosto que ela pde ver na expresso dele, Felicity sabia que Vidal y Salvadores, duque de Fuentualba, nunca aceitaria 
sua presena ali, em sua terra natal, que tambm era dela de certo modo, j que seu falecido pai era espanhol.
      Espanhol e tio adotivo de Vidal.
      Ela precisou reunir toda coragem que tinha e passar muitas noites sem dormir para chegar ali, mas Vidal nunca saberia disso. Ela no pediria nem um centavo 
a ele, pois sabe que no receberia. J tivera provas disso.
      O pnico vibrou em seu estmago, fazendo o corao bater mais forte e o pulso acelerar. Ela no deveria pensar nisso. No agora, quando precisava de toda fora 
que tinha. Sabia que essa fora se derreteria como uma miragem no calor do sol de Andaluzia, se ela permitisse que aquelas terrveis e vergonhosas lembranas tomassem 
conta de sua mente.
      Fliss sentiu que jamais desejara tanto o amor reconfortante da me, ou at mesmo a presena intimidadora de seu trio de amigas. Mas elas, como sua me, estavam 
ausentes da sua vida agora. Podiam estar vivas, no mortas como sua me, mas suas carreiras as tinham conduzido para partes distantes do mundo. Somente Fliss permanecera 
em sua cidade natal e, agora, tornara-se vice-diretora do departamento de turismo, um emprego que exigia muita responsabilidade.
      Um trabalho que significava que ela poderia dizer a si mesma estar muito ocupada para construir um relacionamento significativo com um homem?
      Tais pensamentos eram como uma dor de dente. Era melhor pensar por que ela decidira largar o que havia construdo atravs de longas horas de trabalho para 
estar ali, quando, na realidade, o testamento do pai poderia ter sido facilmente tratado em sua ausncia. Com certeza era isso que Vidal desejava.
      Vidal.
      Se ela tivesse coragem de seguir livre do prprio passado. Se ela no estivesse algemada ao passado por um sentimento de vergonha to profundo, do qual jamais 
conseguiria fugir. Se apenas... Havia tantos "se" em sua vida, a maioria por causa de Vidal.
      No calor da multido, do lado de fora do tumultuado aeroporto espanhol, onde ela acabara de chegar, Vidal deu um passo na direo dela. Fliss reagiu imediatamente, 
seu corpo enrijeceu com raiva e rejeio, o crebro congelou de modo que no conseguiu falar ou se mover.
      J fazia sete anos desde a ltima vez em que o vira, mas ela o reconheceu imediatamente. Impossvel no identificar, quando a fisionomia dele estava gravada 
profundamente s emoes dela. Era to profundo e to txico que, mesmo agora, as feridas ainda no haviam cicatrizado. Isso  absurdo, Fliss disse a si mesma. Ele 
no tinha nenhum poder sobre ela agora. E ela estava ali para provar isso a ele.
      - Voc no precisava vir me buscar - ela disse a Vidal, levantando a cabea para olh-lo nos olhos. Aqueles olhos que um dia olharam para ela de uma maneira 
que a despira de orgulho e respeito prprio.
      O estmago de Fliss revirou enquanto ela observava aquela figura masculina bela, aristocrtica e arrogante. A boca dele franziu-se em um gesto de desprezo 
desdenhoso quando olhou para ela, a luz do pr do sol brilhando nos cabelos negros dele. Fliss tinha l,70m de altura, e mesmo assim precisou inclinar a cabea para 
trs para olh-lo nos olhos.
      Estava com calor e cansada da viagem, e seu corpo reagiu ao calor pouco familiar com a necessidade de remover seu cabelo cor de mel para longe da nuca. J 
podia senti-lo comeando a encaracolar por causa do calor mido, acabando com o trabalho que tivera pala deix-lo impecavelmente liso. No que sua aparncia pudesse 
competir com a verdadeira elegncia das mulheres espanholas dali. Fliss preferiu vestir roupas casuais, uma cala jeans desbotada e uma blusa de algodo branca. 
O casaco que estava usando quando embarcara no Reino Unido fora guardado dentro da mala.
      Vidal franziu a testa quando seu olhar foi atrado pela sensualidade dos cabelos cor de mel, lembrando-lhe da ltima vez em que os vira. O cabelo dela, assim 
como seu corpo, espalhou-se sobre a cama, apreciando a ateno amorosa do menino que a acariciava antes que Vidal e sua me interrompessem.
      Vidal desviou o olhar com raiva. A presena dela ali no era bem-vinda, sua moral era uma afronta a tudo em que ele acreditava. Contudo, no deixaria seu orgulho 
de lado.
      Observar a sensualidade libertina do rosto dela, ter testemunhado a maneira com que ela, aos dezesseis anos, j era leviana, v-la ostentado sensualidade sem 
um pingo de vergonha, deveria t-lo feito sentir nojo e nada mais. S que, junto com esse sentimento, como uma espada atravessada em seu corpo, havia aquele desejo 
momentneo. Que deixara uma marca de desdm nele, que jamais cicatrizara completamente.
      Ela poderia at afetar sua mente, mas no voltaria a afetar seu corao.
      No deveria estar ali, Fliss disse a si mesma. Sem saber que teria de confrontar Vidal. Sem saber o que ele pensava dela e o por que. Mas no tinha como no 
ir. Como negar a ltima oportunidade de descobrir alguma coisa sobre o pai?
      Diferente dela, Vidal parecia impecavelmente frio em meio a tanto calor. Ele vestia um terno bege que, aparentemente, s ficava bem nos homens do continente, 
e a camiseta azul que usava por baixo destacava seu olhar dourado. O olhar de um caador, de um predador frio, cruel e ameaador. Ela jamais esqueceria aqueles olhos. 
Eles a assombravam em sonhos, deslizavam sobre sua pele como gelo, queimavam seu orgulho.
      Mas Fliss no deixaria que isso transparecesse. No se encolheria de medo diante do foco lacerante e incisivo e no seria intimidada. S admitiria para si 
mesma que fora um choque encontr-lo esperando por ela no aeroporto. No esperava por isso, apesar de ter escrito aos advogados informando seus planos, que ele no 
aprovaria, mas os quais ela no tinha inteno de mudar. Uma sensao de triunfo misturada com adrenalina a atingiu ao pensar em obter o melhor dele.
      - Voc no mudou nada, Vidal - ela disse, criando coragem. - Obviamente, voc ainda odeia o fato de eu ser filha de meu pai. Afinal de contas, foi graas a 
voc que meus pais se separaram, no foi? Foi voc que os traiu para beneficiar sua av.
      - O casamento deles nunca teria sido permitido.
      Fliss sabia que isso era verdade. Sua me acabara admitindo, com mais tristeza e amargura. Contudo, Fliss no desistiria facilmente da oportunidade de acabar 
com a moral de Vidal.
      - Se tivessem tido mais tempo, encontrariam uma sada.
      Vidal desviou o olhar. Dentro de sua cabea, havia uma lembrana que no queria reavivar: o som de sua voz aos sete anos contando com ingenuidade  av como 
ele e sua bab depararam-se inesperadamente com o tio adotivo durante uma visita em Alhambra. Na poca, ele no percebera que o tio deveria estar em Madri tratando 
de negcios da famlia, e certamente no percebera a importncia daquele encontro inesperado.
      No entanto, sua av havia percebido. Felipe era filho de sua amiga de longa data, Maria Romero, uma viva pobre, porm aristocrtica. Quando Maria descobrira 
que estava com cncer terminal e tinha poucos meses de vida, pedira  amiga que adotasse Felipe, na poca com 12 anos, e o criasse como seu filho. Tanto sua av 
quanto Maria compartilhavam a crena antiquada de que pessoas de certas famlias, de certa linhagem e tradio, s deveriam se casar com quem compartilhasse esses 
atributos.
      Culpa. Era um fardo pesado a se carregar.
      - Eles nunca conseguiriam autorizao para se casar - ele repetiu.
      Vidal era odioso, arrogante, com o orgulho frio como gelo e duro como granito. Tecnicamente, a me de Fliss morrera do corao, mas quem podia afirmar que 
isso no fora resultado da tristeza e dos sonhos destrudos? Ela estava com apenas 37 anos quando falecera, e Fliss tinha dezoito, prestes a entrar para a universidade. 
Apesar dos dezoito anos, ainda era uma menina, mas agora, aos 23, era uma mulher.
      Fliss tinha visto a cor da culpa queimando a pele dourada dele? A pele, que era um legado deixado como herana pelas geraes de nobres de puro sangue castelhano. 
Provavelmente, no. Esse homem no era capaz de sentir culpa, ou nenhum outro sentimento. Seu sangue no permitia. Esse sangue que, segundo diziam, j fora misturado 
ao de uma princesa moura cobiada pelo orgulhoso castelhano que era inimigo da famlia dela e a roubara para satisfazer seus prprios prazeres. Ele dera  esposa, 
com quem compartilhava a mesma linhagem, a criana nascida de seu relacionamento proibido, deixando sua concubina para morrer de tristeza pelo filho perdido.
      Fliss podia imaginar que a famlia que criara o homem parado diante dela era capaz de cometer tal atrocidade. Quando a me contara pela primeira vez a antiga 
histria do duque castelhano, Fliss relacionara imediatamente, em seus pensamentos, Vidal ao duque. Ambos compartilhavam o mesmo desprezo pelos sentimentos dos outros, 
a mesma crena arrogante de que tinham o direito de passar por cima das pessoas, de julg-las e conden-las, sem permitir que se defendessem. O direito de negar 
um pai a uma criana, de impedir que ela conhecesse e amasse o pai simplesmente porque no a consideravam "boa o suficiente" para fazer parte da famlia.
      Seu pai. Em sua mente, Fliss sentia o gosto das palavras pesando em sua lngua, o sabor era confuso e novo. Passara a maior parte da vida especulando sobre 
o pai, imaginando como seria encontr-lo, desejando esse encontro. Em casa, em seu apartamento em um prdio de estilo gregoriano, com belos jardins, uma quadra de 
tnis e piscina coberta, Fliss tinha uma caixa onde guardava todas as cartas que escrevera em segredo para o pai. Cartas que havia escondido da me para no mago-la. 
Cartas que nunca foram enviadas. Exceto uma.
      Sua bisav fora responsvel pela separao de seus pais, mas fora Vidal quem impedira que ela tivesse algum contato com o pai. Vidal negara a ela o direito 
de conhecer o pai porque considerara que no era "bom o suficiente" para fazer parte da famlia.
      Ao menos o pai tentara compensar sua ausncia de alguma forma.
      - Por que est aqui, Felicity? -A frieza na voz de Vidal mexia com o orgulho dela.
      - Voc sabe perfeitamente bem por que estou aqui. Estou aqui por causa do testamento do meu pai.
      Ela havia dito palavras meu pai, e Fliss tentou controlar as emoes que acompanhavam essas palavras. Houvera tanta dor, tanta confuso, tanta vergonha ao 
longo dos anos. Tudo por causa da rejeio que ela e a me sofreram pela famlia do pai. E, para ela, Vidal era a personificao dessa rejeio. Vidal, que a negara 
e magoara de muitas formas, muito mais que o prprio pai.
      Vidal. Fliss conteve as emoes que ameaavam inund-la, com medo do que poderia acontecer; temendo o que precisaria confrontar se permitisse que a mar de 
sentimentos se precipitasse dentro dela, deixando-a vulnervel.
      A verdade  que ela no estava ali por causa do benefcio material resultante do testamento do pai, mas sim por causa do benefcio emocional, a cura emocional 
pela qual ela tanto ansiara. Contudo, no havia poder neste mundo que a forasse a revelar a verdade a Vidal.
      - Voc no precisava vir at aqui por causa do testamento de Felipe. A carta que o advogado enviou para voc deixou tudo muito claro. Sua presena aqui no 
 necessria.
      - Da mesma forma que, a seu ver, eu e minha me no ramos necessrias na vida de meu pai. Na verdade,  o oposto. Como voc  arrogante, Vidal, achar que 
tem o direito de fazer tal julgamento! Por outro lado, voc gosta de julgar a vida das pessoas, no ? Voc acha que  melhor que qualquer um, mas no . Apesar 
da distino, apesar da arrogncia e do orgulho que carrega com as alegaes de seu sangue castelhano, voc o merece menos que qualquer mendigo nas ruas de Granada. 
Voc despreza os outros porque se considera superior, mas a realidade  que voc deveria ser tratado com desprezo.  incapaz de sentir compaixo e compreenso.  
incapaz de sentir emoes verdadeiras, no sabe o que  ser humano - ela disse com emoo, arremessando as palavras contra ele.
      Plido, Vidal ouviu o que Fliss tinha a dizer. O fato de ela, entre todas as pessoas, fazer tais acusaes, o enfurecia.
      - Voc no sabe nada sobre quem eu sou - ele respondeu violentamente.
      -Ao contrrio, sei muito sobre voc - Fliss o corrigiu. - Voc  o duque de Fuentualba, nasceu para ocupar esse cargo. Na verdade, foi criado para ocup-lo, 
uma vez que o casamento de seus pais foi arranjado pelas duas famlias com a finalidade de preservar a linhagem de sangue. Voc  dono de muitas terras, aqui e na 
Amrica do Sul, representa e apia um sistema feudal que obriga os outros a se submeterem ao seu poder, e acha que isso lhe d o direito de trat-las com desprezo 
e desdm.  por sua causa, e por causa do que voc , que eu nunca conheci meu pai enquanto ele estava vivo.
      - Agora est aqui para vingar-se?  isso que est tentando me dizer?
      - No preciso me vingar - Fliss rebateu, repudiando a acusao. - Sua natureza far a vingana cair sobre voc. Mas tenho certeza de que voc nem perceber. 
Sua natureza e sua viso da vida negaro a voc o que voc negou aos meus pais: um relacionamento feliz e amoroso, entre duas pessoas que estavam juntas porque se 
amavam, nada mais. Minha vingana ser saber que voc jamais conhecer a verdadeira felicidade, porque no  geneticamente capaz. Jamais ter o amor de uma mulher, 
e o que d mais pena  que nem vai perceber o que est perdendo.
      O silncio dele era debilitante, Fliss concluiu. Contudo, ela no era como sua me, gentil e vulnervel, rebaixada por um homem arrogante a uma pessoa receosa 
e sem importncia.
      - Ningum nunca lhe disse que pode ser perigoso expressar tais opinies?
      - Talvez eu no me importe com o perigo quando se trata de falar a verdade - Fliss respondeu, dando de ombros. -Afinal, o que mais voc pode fazer para me 
prejudicar?
      Esse era seu limite para revelar a dor que sentia por dentro. Dizer mais seria perigoso. No poderia continuar falando sem arriscar expor as cicatrizes profundas. 
Eles, ele mudara a vida dela para sempre. Privaram-na do direito de amar e ser amada, no apenas como filha, mas como mulher. No entanto, esse no era o momento 
para pensar no que havia sofrido. Jamais daria a Vidal a satisfao de saber o que fizera com ela.
      Vidal lutou contra a ameaa, buscando o autocontrole.
      - Deixe-me esclarecer uma coisa - ele anunciou severamente, escolhendo cada palavra com cuidado- Quando se trata de meu casamento, minha futura esposa no 
ser uma mulher...
      - Como eu? - Fliss completou insultuosamente.
      - Nenhum homem honesto quer ter como esposa algum com a moral de um co sarnento. E da natureza do homem proteger as virtudes de sua companheira, querer que 
a intimidade que compartilha com ela seja exclusiva. Um homem nunca pode ter certeza de que o filho que sua esposa carrega  dele mesmo; contudo, busca instintivamente 
uma parceira que acredite ser sexualmente leal a ele. Quando eu me casar, minha esposa saber que ter meu comprometimento vitalcio, e espero o mesmo dela.
      Ele estava enraivecido. Dava para perceber. Mas, em vez de intimid-la, alegrou-a. Fliss ficou alegre e excitada, fazendo com que o provocasse ainda mais, 
at o limite do autocontrole. Uma onda sbita de medo percorreu sua espinha. Vidal era um homem de paixes fortes e mantinha tais paixes fortemente controladas. 
A mulher que as despertasse precisaria ser igualmente impetuosa ou estaria arriscando-se a ser consumida pelo ardor flamejante. Na cama, ele deveria ser...
      Chocada, Fliss virou-se para o outro lado, tentando fugir dos prprios pensamentos. Seu rosto estava pegando fogo. O que estava acontecendo com ela? Sentiu 
como se tivesse sido atingida por um raio, sentindo-se aflita e instvel. Como pudera ter pensado isso sobre Vidal?
      - Voc no precisava ter vindo at a Espanha, Felicity.
      - Voc quer dizer que no queria que eu viesse - ela respondeu friamente. - Bem, tenho algumas novidades, Vidal. No tenho mais  dezesseis anos e voc no 
manda em mim. Agora, se me der licena, gostaria de ir ao meu hotel. Voc no precisava ter vindo ao aeroporto - ela disse, na pretenso de dispens-lo. - Tudo que 
temos para falar um com o outro pode ser dito amanh, na reunio com o advogado de meu pai.
      Ela passou por ele para ir embora, mas ele a segurou pelo brao, os dedos longos e bronzeados segurando-a com fora. Parecia estranho que mos to elegantes, 
com unhas to bem feitas, possussem tal poder masculino, Fliss reconheceu enquanto sua pele pulsava violentamente sob o toque. Seu corao batia com velocidade 
pouco familiar, como se respondesse ao comando dele e no ao comando do prprio corpo.
      - Deixe-me ir. - Seu protesto recebeu um olhar sombrio como resposta.
      - No h nada que eu queira mais, posso garantir. Mas minha me espera que voc fique conosco, portanto isso no ser possvel.
      - Sua me?
      - Sim. Ela veio especialmente, de sua casa nas montanhas para lhe dar as boas-vindas como membro da famlia.
      - Me dar s boas-vindas como membro da famlia? Voc acha que eu quero isso depois da maneira como "a famlia" tratou minha me? A bab, que no era boa o 
suficiente para se casar com meu pai? Depois do modo como se recusaram a aceitar minha existncia?
      Ignorando a exploso de raiva de Fliss, como se ela nem tivesse falado, Vidal prosseguiu:
      - Voc deveria ter pensado nas conseqncias antes de vir aqui. Contudo, voc no  o tipo de pessoa que pensa nas conseqncias do prprio comportamento, 
no ? Nem nas conseqncias nem no efeito que ter sobre os outros.
      Fliss no conseguia olhar para ele.  claro que jogaria isso na cara dela.
      - No quero conhecer sua me. Minha reserva no hotel...
      - Foi cancelada.
      No, eles no podem. No deveriam. Fliss foi tomada pelo pnico. Abriu a boca para protestar, mas j era tarde demais. J estava sendo firmemente arrastada 
na direo do estacionamento. Um movimento na multido fez com que se aproximasse de Vidal, e sua pele logo percebeu a fora e o calor masculinos quando sua coxa 
esbarrou brevemente na dele, musculosa, debaixo da cala de tecido. Ela recuou, a boca ficou seca, o corao golpeava, enquanto as lembranas vinham  tona.
      Eles se moviam rapidamente sob o brilho e o calor do sol de vero. Provavelmente esse era o motivo de o corpo dela estar to quente.
      - Voc deveria usar um chapu - Vidal a repreendeu, olhando para seu rosto vermelho. - Sua pele  muito clara para se expor assim ao sol.
      Contudo, Fliss sabia que no estava assim por causa do sol. Felizmente, apenas ela sabia.
      - Tenho um chapu na minha mala. Mas no achei que precisaria dele, j que esperava ir direto para o hotel de txi, em vez de ser sequestrada e arrastada pelo 
estacionamento.
      - Voc est parada porque decidiu iniciar uma discusso. Meu carro est ali - disse Vidal. A arrogncia dele fez com que Fliss rangesse os dentes.
      Ele no se desculpava por nada e, ainda por cima, fazia com que ela parecesse estar errada. Vidal colocou a mo nas costas dela para direcion-la ao carro, 
contudo sua reao imediata foi afastar-se rapidamente. No conseguiria suportar o toque. Seria uma forma de auto traio que ela no poderia tolerar. E, alm do 
mais, ele era muito... Muito o qu? Masculino?
      Ele percebeu seu movimento apressado, e agora olhava para ela com tanto desprezo que Fliss sentiu um frio na barriga. . ,
      -  tarde demais pra voc fingir ser a moa virgem que teme o toque masculino - ele advertiu.
      Fliss no permitiria que falasse assim com ela.
      - No estou fingindo - ela respondeu. - E no foi medo, foi nojo.
      - Voc perdeu o direito a esse tipo de reao casta h muito tempo, ambos sabemos disso - Vidal disse com escrnio.
      Raiva e algo mais, algo triste e doloroso, apertaram violentamente o corao de Fliss.
      Uma vez, h muito tempo, ela havia sido uma jovem prestes a ter seu primeiro relacionamento emocional e sexual com um homem adulto de verdade, vendo nele tudo 
aquilo que seu corao romntico almejava e o potencial romntico para satisfazer qualquer fantasia inocente da sexualidade que aflorava. Uma sensao, como um raio, 
percorreu sua espinha, sensibilizando a pele e arrepiando a nuca.
      Uma nova onda de arrepio tomou conta de seu corpo. O pnico a dominou. Provavelmente era resultado do calor. No poderia ser apenas Vidal. Impossvel, Vidal 
no podia ser responsvel pelo repentino tremor e sensao queimando-a por dentro. S poderia ser algum tipo de anormalidade fsica, era isso. Uma manifestao indireta 
do quanto ela o odiava. Estremeceu de dio, mas no porque ansiava pelo toque daquele homem. Afinal, jamais conseguiria desejar Vidal. Impossvel.
      Ao perceber que seu pulso estava acelerado, de raiva, Fliss fez uma pausa para respirar. Esqueceu momentaneamente a hostilidade que sentia por Vidal e respirou 
o aroma mgico da cidade. Ficou fascinada e extasiada. Claro, havia o cheiro de combustvel e poluio, mas tambm havia o aroma do ar aquecido pelo sol misturado 
 essncia histrica do Leste e seus antigos governantes mouros: perfumes suaves e temperos aromticos. Se ela fechasse os olhos, seria capaz de ouvir a musicalidade 
da gua correndo, to admirada pelos mouros, e vislumbraria os ricos tecidos que viajaram pela Rota da Seda para chegar at Granada.
      O passado histrico da cidade parecia abra-la. Um suspiro de essncias, uma lufada de perfumes erticos, o toque sensual da seda.
      - Este  meu carro.
      O choque da voz de Vidal invadindo seus pensamentos a trouxe de volta  realidade. Entretanto, no voltou rpido o suficiente para desviar a mo mscula apoiada 
em suas costas. Seu calor parecia queimar sua pele. Ele era o tipo de homem que exigiria um selo de posse, sua marca na pele de uma mulher, carimbando-a para sempre. 
Uma imagem formou-se dentro da cabea de Fliss. A imagem de uma mo masculina acariciando as costas nuas de uma mulher. De maneira intencional e ertica, a mo desceu 
para envolver as ndegas da mulher, virando-a para ele. A pele dela era plida e contrastava com a dele.
      No! Seu corao batia forte e sua cabea latejava, ambos confusos pelas emoes conflitantes. Ela precisava se concentrar na realidade. Mas estava sendo difcil.
      O carro dele era grande, polido e preto. O tipo de carro que ela via homens ricos dirigindo em Londres.
      - Ento voc no apia causas verdes, no ? - Fliss no perdeu a oportunidade de provocar Vidal, enquanto ele abria a porta do carro para ela e colocava suas 
malas no banco de trs.
      O barulho da porta fechando foi  nica resposta que obteve. Ele contornou o carro e entrou pela porta do motorista.
      O silncio significava que ela o havia aborrecido? Fliss esperava que sim. Queria deix-lo incomodado. Queria ser uma pedra em seu sapato, um lembrete do que 
fizera a ela e um lembrete a si mesma.
      Ele no queria que ela estivesse ali. Fliss sabia disso. O desejo dele era que ela tivesse largado tudo nas mos dos advogados. Mas ela estava determinada 
a aparecer. Para ofender Vidal? No! Buscava sua herana, no retaliao.
      Afinal, a essncia desse pas tambm estava em seu sangue.
      Granada, lar dos ltimos governantes mouros do Reino de Granada e lar do Alhambra, a fortaleza vermelha, um complexo de tamanha beleza que o rosto de sua me 
se enchera de alegria quando falara dele para Fliss. Fazia parte da herana.
      - Meu pai foi l com voc? - ela perguntou  me. Fliss tinha por volta de sete anos na poca, mas nunca se referira ao homem que lhe dera a vida como "pai". 
Pais eram homens que brincavam com seus filhos e os amavam, no eram estranhos que viviam em um pas distante.
      - Sim - sua me respondeu. - Uma vez fui l com Vidal, e seu pai nos acompanhou. Foi um dia maravilhoso. Um dia iremos juntas para l, Fliss - a me prometeu. 
Contudo, de certa forma, esse dia nunca havia chegado. Agora, ela estava l sozinha.
      Atravs dos vidros escuros do carro, ela conseguia ver a cidade diante deles, o antigo bairro mouro de Albaicn na colina em frente  Alhambra. Perto dali 
havia um bairro judeu igualmente antigo, mas Fliss no se surpreendeu ao ver Vidal entrar em uma rua repleta de grandes construes do sculo XVI, erguidas depois 
que a cidade fora tomada pelos lideres catlicos Isabella e Ferdinando. Ali nessa rua, os prdios com estilo renascentista exalavam riqueza e privilgio, bloqueavam 
os raios do sol criando sombras imponentes.
      Fliss ficou surpresa ao ver que Vidal dirigia o prprio carro, mas no se surpreendeu quando entrou na casa com o grande porto duplo de madeira. Essa rea 
da cidade, com seu ar de arrogncia, combinava perfeitamente com ele e com sua magnificncia escultural visualmente perfeita.
      Fliss ficou feliz ao se distrair desse pensamento em particular ao avistar o jardim por onde passavam, com linhas perfeitamente simtricas, e at mesmo o som 
da gua, na fonte ornada, parecia sincronizado.
      A casa se parecia mais com um palcio; estava no meio do jardim e dava para o porto por onde entraram. Na parede  direita, um arco ornado dava para o que 
parecia ser um jardim formal. Foi  impresso de Fliss antes que Vidal estacionasse o carro em frente  escadaria de pedra. A escadaria terminava em uma porta de 
madeira macia. As janelas da frente da casa de trs andares estavam fechadas contra o sol do final da tarde. Mais acima, Fliss avistou o emblema de Granada, um 
rom, e acima da porta de entrada estava o braso da famlia com uma inscrio que dizia: "Mantemos o que  nosso."
      No era apenas a profisso que a encoraja a analisar novas reas com o olhar de turista, que fazia com que observasse tais detalhes. Fazia parte de ela registrar 
o mximo que podia sobre a histria da famlia de Vidal. E, obviamente, de sua prpria famlia.
      - Voc no se incomoda com o fato de esta casa ter sido construda com dinheiro roubado do prncipe muulmano que seu ancestral assassinou? - ela desafiou 
Vidal, sem permitir que a beleza da casa ocultasse a forma como fora construda.
      - Existe um ditado que diz que os vitoriosos ganham as sobras. Meus ancestrais foram uns dos muitos castelhanos que venceram a batalha contra Boabdil, Muhammad 
XII, para Ferdinand e Isabella. O dinheiro para construir essa casa foi dado a ele por Isabella e, longe de permitir que algum fosse assassinado, Alhambra Decree 
concedeu liberdade religiosa aos muulmanos.
      - Um pacto que foi quebrado - Fliss lembrou. - Assim como o seu ancestral quebrou a promessa que fez  princesa muulmana que roubou da prpria famlia.
      - Meu conselho a voc  verificar melhor os fatos em vez de apenas repeti-los.
      Sem permitir que ela respondesse, Vidal saiu do carro, caminhando a passos largos e abrindo a porta para Fliss. Ignorando a mo que ele estendeu, ela saiu 
do carro, determinada a no transparecer a impresso que teve do local. Em vez disso, pensou na me. Ser que ela se sentira intimidada pela arrogncia e pelo desdm 
com que a casa encara aqueles que no pertenciam ao lugar? Sua me havia adorado os momentos que passara na Espanha, apesar da infelicidade que causaram no futuro. 
Fora contratada pelos pais de Vidal para ser bab, ensinar ingls a Vidal durante os feriados da escola de vero. Sempre deixara claro para Fliss que gostara muito 
do menino que havia ficado sob seus cuidados.
      Ser que havia sido ali, naquela casa, que ela se apaixonara pelo tio adotivo de Vidal, o homem que fora seu pai? Talvez tenha encontrado o belo espanhol ali, 
naquele jardim. Bonito, talvez, mas no forte o suficiente para defender sua me e o amor que sentiam, Fliss recordou-se secamente, tentando no se deixar levar 
pela paisagem romntica.
      Ela sabia que a me visitara essa casa, em Granada, muito brevemente. Passara a maior parte da estada na Espanha no castelo, na propriedade rural do duque, 
que era a principal casa dos pais de Vidal.
      Fliss sentiu um aperto no corao quando tentou imaginar o sofrimento da me. Vidal tambm havia contribudo para esse sofrimento, ela pensou brevemente, afastando-se 
dele. O movimento fez com que seu p escorregasse e virasse o tornozelo, perdendo o equilbrio.
      Imediatamente, Vidal foi at ela, segurando-a pelos braos para que ficasse em p. Os instintos de Fliss ordenavam que rejeitasse a ajuda, mas ele se afastou 
rapidamente com olhar de desaprovao. Ela sentiu fria e humilhao, mas no podia fazer nada alm de dar as costas a ele. Estava presa, no apenas quele lugar, 
mas tambm no passado e no envolvimento de Vidal com tudo o que acontecera. Como as fortalezas que uma vez cercaram cidades, o desprezo de Vidal era uma priso da 
qual no havia sada.
      Passando por ele, Fliss entrou na casa, parando no hall frio com uma magnfica escada de madeira polida, que combinava com o restante do ambiente.
      Havia retratos pendurados na parede branca. Aristocratas espanhis encarando-a de dentro das molduras douradas. Nenhum deles estava sorrindo; ao contrrio, 
as expresses eram de arrogncia e desdm. Da mesma forma como Vidal, seu descendente, encarava o mundo agora.
      Uma porta se abriu, revelando uma mulher de meia-idade. Embora estivesse vestida de maneira simples, no havia como negar que era a me de Vidal, pela postura 
ereta e a confiana calma.
      Fliss percebeu que estava errada quando Vidal disse:
      - Deixe-me apresentar Rosa, que cuida das tarefas da casa. Ela vai levar voc at seu quarto.
      A governanta aproximou-se de Fliss, analisando-a com o olhar. Voltou-se para Vidal e falou em espanhol:
      - Se a me era uma pomba, esta aqui parece um falco selvagem que precisa ser domado!
Fliss ficou furiosa.
      - Eu falo espanhol - disse aos dois. - E no serei domada por ningum nesta casa.
Ela deu meia-volta e subiu as escadas. Rosa foi atrs dela.
      
      
      
      
    CAPTULO DOIS
      
      
      
      
      Quando estavam no primeiro andar, Rosa quebrou o silncio e disse:
      - Ento, voc fala espanhol?
      - Por que no falaria? - Fliss desafiou. - No importa o que Vidal pense, no pode me impedir de falar o idioma nativo de meu pai.
      Jamais contaria a Rosa, ou a qualquer um ali, que, na adolescncia, sonhando em algum dia conhecer o pai, tivera aulas de espanhol sem que a me soubesse. 
Muito antes da adolescncia, Fliss percebera que a me temia que ela fizesse qualquer coisa para conhecer o pai. Sua me fora uma pessoa gentil que no gostava de 
discusses e Fliss a amava muito.
      - Bem, voc certamente no herdou o esprito de seus pais - comentou Rosa. - Mas no a aconselho a duelar com Vidal.
      Fliss parou quando subiu no primeiro degrau do prximo lance de escadas. Virou-se para a governanta, indignada com o pensamento de Vidal controlar qualquer 
aspecto de sua vida.
      - Vidal no tem autoridade sobre mim - ela disse veementemente. - E nunca ter.
      Uma movimentao no primeiro andar chamou sua ateno. Olhou para baixo e percebeu que Vidal estava l parado. Ele deveria ter ouvido, e era por isso que estava 
com aquele sorriso no rosto. Provavelmente desejava ter autoridade sobre ela. Se tivesse, ela no estaria na Espanha. Da mesma forma que a impedira de fazer contato 
com o pai anos atrs.
      Fliss lembrava-se perfeitamente dele parado em seu quarto, segurando a carta que havia escrito ao pai seis semanas antes. A carta que ele interceptara. A carta 
escrita com seu corao de  dezesseis anos a um pai que no conhecia.
      Cada um dos sentimentos de ternura e sensualidade que ela havia comeado a sentir por Vidal foram esmagados naquele momento. Esmagados e transformados em amargura 
e raiva.
      - Fliss, querida, voc deve me prometer que no tentar fazer contato com seu pai novamente - sua me alertou, com lgrimas nos olhos, depois que Vidal retornara 
 Espanha e as duas ficaram sozinhas novamente.
       claro que ela havia feito essa promessa. Amava demais a me para mago-la, especialmente quando...
      No! Ela no permitiria que Vidal a arrastasse novamente para aquele lugar vergonhoso que destrura seu orgulho para toda a vida. Sua me havia compreendido 
o que acontecera. Sabia que a culpa no havia sido de Fliss.
      A maturidade lhe trouxe a conscincia de que, j que o pai sempre soubera onde estava, poderia ter feito contato com ela se desejasse faz-lo. O fato de que 
ele nunca o fizera esclarecia muita coisa. Afinal, ela no era a nica criana a crescer sem pai. Com a morte da me, dissera a si mesma que era hora de seguir em 
frente. Hora de comemorar a infncia e a me amorosa que tinha, e esquecer o pai que a rejeitara.
      Fliss nunca saberia o que fizera o pai mudar de idia. Nunca saberia se ele havia sentido culpa ou arrependimento pelas oportunidades perdidas que o levaram 
a mencion-la em seu testamento. Mas, desta vez, no permitiria que Vidal determinasse o que podia e no podia fazer.
      No corredor abaixo, Vidal observou Fliss dar meia-volta e seguir Rosa ao longo do prximo lance de escadas. Vidal se orgulhava do domnio de suas emoes e 
reaes, uma caracterstica que ele desenvolvera e aperfeioara. Mas, por algum motivo, seu olhar, to obediente ao seu comando, achou necessrio admirar as pernas 
de Fliss enquanto ela se afastava.
      Aos  dezesseis anos, aquelas pernas eram delgadas. Ela era uma criana se transformando em uma mulher, com pequenos seios, apertados debaixo das camisetas 
que ela sempre vestia. Perto dele, ela se comportava com inocncia premeditada, que envolvia olhares roubados, e os olhos arregalados quando ela se deparara com 
seu torso nu, ao entrar no banheiro, enquanto ele fazia a barba. Mas Vidal sabia o que ela era de verdade: promscua e sem moral ou orgulho. Por natureza? Ou porque 
havia sido privada de um pai?
      A culpa da qual nunca poderia escapar torceu sua conscincia. Quantas vezes, ao longo dos anos, desejara no ter dito aquelas palavras inocentes que levaram 
ao trmino forado do relacionamento entre seu tio e sua bab? A simples informao que ele havia dado  av de que Felipe se juntara a eles em um passeio em Alhambra, 
ali em Granada, acabara com tudo, e acabara com ele.
      A duquesa viva jamais permitiria que Felipe se casasse com outra pessoa que no fosse  mulher que ela escolhera. E jamais escolheria uma simples bab como 
noiva para um homem cujo sangue era to nobre quanto o de sua famlia adotiva.
      Como uma criana de sete anos, Vidal no compreendera isso, mas percebera rapidamente as conseqncias de seus atos inocentes quando ficara sabendo que a gentil 
bab inglesa de quem tanto gostava havia sido mandada embora. Nem a me de Fliss nem Felipe eram fortes o suficiente para desafiar a autoridade da av. Nenhum deles 
soubera, quando foram forados a se separar, que seu amor traria conseqncias sob a forma de uma criana concebida pela me de Fliss. Uma criana cujo nome e existncia 
foram ordenados pela av a nunca serem mencionados, a menos que ela o fizesse, a fim de lembrar ao tio da vergonha que ele causara a sua famlia adotiva, rebaixando-se 
ao conceber uma criana com uma simples bab.
      Se tivesse vivido o suficiente, a av teria justificado suas exigncias ao ver no que se tornara a filha de Felipe.
      Vidal sentira pena da me de Felicity quando os dois retornaram mais cedo de uma visita a Londres para discutir assuntos particulares, e descobriram que Felicity 
no apenas estava dando uma festa adolescente ilcita, como tambm estava no quarto da me com um bbado ignorante.
      Vidal fechou os olhos e os abriu novamente. Algumas lembranas ele preferia no rever. A constatao de que ele, inadvertidamente, acabara com o caso de amor 
da bab.  noite em que a me entrara em seu quarto para dizer que o avio em que seu pai estava cara na Amrica do Sul e que no havia sobreviventes.  noite em 
que ele tivera de olhar para Felicity esparramada na cama da me, o cabelo cor de mel enrolado e a mo do jovem debruada sobre ela enquanto ela o encarava com desrespeito 
atrevido por aquilo que havia feito.
      Desrespeito atrevido por ele.
      Vidal sentiu como se estivesse sufocando. Ele tinha 23 anos, era um homem, no um menino, mas sentiu-se aterrorizado com o efeito que Felicity exerceu sobre 
ele. Estava revoltado com o desejo que sentia, tanto por ela quanto por seu cdigo moral. Um cdigo que dizia que uma menina de  dezesseis anos era apenas isso, 
uma menina; e um homem de 23 tambm era exatamente isso, um homem. A diferena de idade de sete anos entre eles era uma lacuna que separava a infncia da vida adulta 
e representava um abismo que no deveria ser violado. Assim como a inocncia de uma menina no deveria ser violada.
      Mesmo agora, sete anos depois, ele ainda podia saborear a raiva que azedara seu corao e sua alma. Uma fria sombria e ardente, que estava ganhando vida novamente 
com a presena de Felicity.
      Vidal relaxou os msculos tensos dos ombros. Quanto mais cedo esse negcio acabasse e Felicity pegasse um avio de volta para o Reino Unido, melhor.
      Quando Felipe estava morrendo, e confessara o quanto se sentia mal pelo passado, Vidal encorajou-o a incluir no testamento a criana de quem era pai e que 
fora forado a abandonar. Contudo, ele fizera isso pelo bem do tio, no de Felicity.
      * * *
      No andar de cima, Rosa mostrou a Fliss qual seria seu quarto. Ela estudou o ambiente. O quarto era enorme, com um teto alto, decorado com mveis de madeira 
macia escura e ornada. Pelas descries da me, Fliss sabia que era um mobilirio antigo muito caro, tpico espanhol. Lindamente polida e sem um gro de poeira, 
a madeira brilhava vivamente  luz que flua atravs das altas janelas francesas. Abrindo-as, Fliss percebeu que elas davam para uma pequena varanda, decorada com 
metal trabalhado, num estilo mais rabe do que europeu.
      A varanda dava para um jardim, tambm no estilo rabe, dividido pelas linhas retas de um crrego de gua que flua atravs de uma fonte que ficava nos fundos 
do jardim. Ambos os lados do estreito canal estavam cobertos por rosas. Sua essncia chegava at a varanda. No terreno ao lado havia lrios brancos. Os caminhos 
eram feitos de azulejos azuis e brancos. rvores frutferas cobriam as paredes do jardim. Nos pequenos jardins formais do lado oposto das rosas, encontravam-se gernios 
brancos em jarros de terra-cota, logo abaixo da varanda.
      Fliss fechou os olhos. Conhecia o jardim to bem! Sua me o havia descrito, at fizera um desenho e mostrara fotografias. Contara que fora um jardim originalmente 
projetado para uso exclusivo das mulheres da famlia de mouros, para quem a casa fora construda. Com certeza havia sido um ato de crueldade, por parte da Vidal, 
ter lhe dado esse quarto, com vista para o jardim que sua me amara tanto. Ser que sua me j dormira ali? Fliss suspeitava que no. Contara que ela e Vidal ficavam 
no ltimo andar, no berrio, quando visitavam a av de Vidal, que na poca era proprietria da casa, apesar de Vidal ter sete anos.
      Fliss voltou-se para o quarto. Um tecido azul brocado estava pendurado nas janelas e cobria as cadeiras colocadas em cada lado da lareira de mrmore. A colcha 
era do mesmo tom de azul, com brocados e decorada com almofadas. As tbuas de madeira do cho eram cobertas por um antigo tapete azul to luxuoso que Fliss quase 
no ousou pisar nele.
      Tudo muito distante de seu apartamento minimalista. Mas essa decorao, assim como a decorao que escolhera para sua casa, faziam parte da herana gentica 
do pai. Se ele no tivesse rejeitado sua me, se no tivesse negado as duas, Fliss teria crescido familiarizada com essa casa. Assim como Vidal.
      Vidal. Como ela o detestava. Seus sentimentos por ele eram muito mais amargos e cheios de desprezo do que seus sentimentos em relao ao pai. Seu pai, afinal, 
no tinha voz. Conforme a me explicara, ele havia sido forado a abandon-las. Ele no abrira sua carta pedindo por uma oportunidade de conhec-lo e depois dissera 
que ela jamais tentasse contat-lo novamente. Vidal fizera isso. Ele nunca a conhecera pessoalmente e, mesmo assim, olhara para ela com desprezo, e ento a rejeitara 
e se afastara dela. Ele nunca acabara com seu orgulho, deixando uma ferida profunda em seu corao ao julg-la erroneamente. Vidal fizera isso.
      Foi ali, nessa casa, em que as decises foram tomadas. Decises que impactaram a ela e seus pais da maneira mais cruel. Sua me fora demitida. Fora ali que 
ficara sabendo que o homem que amava estava prometido em casamento para uma mulher escolhida para ele por sua famlia adotiva, que estava no ltimo ano em uma escola 
exclusiva que preparava meninas para o casamento. Felipe jurara que no amava essa mulher, nem queria se casar com ela.
      Contudo, no importava o que Felipe queria. Todas as promessas para a me de Fliss, todos os protestos de amor, haviam sido em vo.
      Houve tempo apenas para uma rpida despedida entre os dois. Compartilharam a intimidade febril que levara  concepo de Fliss antes de terem sido separados. 
A me fora enviada para a Inglaterra e, Felipe, instrudo a cumprir com seu dever e pedir em casamento  moa que havia sido escolhida para ele.
      - Ele jurou que me amava, mas tambm amava a famlia adotiva e no podia desobedecer-lhes - a me disse a ela quando Fliss perguntara por que ele no tinha 
ido atrs dela.
      Sua pobre me cometera o erro de se apaixonar por um homem que no fora forte o suficiente para proteger seu amor, e ela pagara o preo por isso. Fliss nunca 
permitiria que o mesmo acontecesse com ela. Nunca se apaixonaria e ficaria vulnervel. Afinal, ela j havia vivenciado isso, apesar de seus sentimentos por Vidal 
terem sido os de uma menina inexperiente de  dezesseis anos.
      Tentara se livrar dos pensamentos dolorosos. Sua me contara sobre o modo de vida tradicional dessa famlia aristocrtica espanhola, liderada por Vidal agora. 
Ele dissera que sua me insistira que ela ficasse. Isso queria dizer que poderia ser formalmente recebida por ela? Talvez durante o jantar? Ela no havia levado 
roupa formal, apenas algumas mudas de roupa ntima, um short, alguns tops de vero e um vestido muito simples.
      Ela estava prestes a tirar o vestido da mala e pendur-lo quando a porta se abriu e Rosa entrou, carregando uma bandeja com um copo de vinho e uma poro de 
tapas. Depois de agradecer, Fliss perguntou:
      - A que horas  servido o jantar?
      - No haver jantar. Vidal no quer. Ele est muito ocupado - Rosa respondeu em espanhol. - Uma refeio ser trazida se voc quiser.
      Fliss podia sentir o rosto queimar. A grosseria de Rosa era imperdovel, mas sem dvida estava aprendendo com Vidal.
      - Tenho tanta vontade de jantar com Vidal quanto ele tem de jantar comigo - disse a Rosa. - Mas, como ele me disse que era o desejo de sua me que eu ficasse 
aqui, em vez de no hotel, presumi que jantaria com ela.
      - A duquesa no est aqui - Rosa informou secamente, largando a bandeja e dirigindo-se para a porta. Ela desapareceu antes que Fliss pudesse fazer mais perguntas.
      Vidal mentiu sobre a presena da me na casa e sobre seu desejo de v-la. Por qu? Por que ele queria t-la ali, sob seu prprio teto?
      Por um instante, ela desejou estar em casa. Mais que isso, desejou que a me ainda estivesse viva. Tomada pela tristeza de suas emoes, Fliss sentou-se na 
beirada da cama.
      A me lhe dera a melhor infncia que algum poderia desejar. Devido a uma herana generosa de um parente que Fliss nunca conhecera, a me havia conseguido 
comprar uma bela casa em uma aldeia tranqila. A casa era suficientemente grande para que os avs de Fliss morassem com elas. A herana tambm proporcionara uma 
renda que possibilitara  me ficar com ela. Sua me falava abertamente sobre Felipe, referindo-se a ele com amor na voz e nos olhos, e sem ressentimento ou amargura. 
S havia ficado nervosa quando Fliss implorara para que a levasse para a Espanha, para que pudesse ver o pas com os prprios olhos. Ela se recusara a criticar Vidal 
quando Fliss, aos sete anos, conclura que ele deveria ter sido o traidor de seus pais.
      - Voc no deve culpar Vidal, querida - a me disse suavemente. - Realmente no foi culpa dele. Ele era apenas um garotinho, tinha a mesma idade que voc tem 
agora. No conseguiu prever o que iria acontecer.
      Sua me, gentil e amorosa, estava sempre pronta para compreender e perdoar aqueles que a magoavam.
      Inicialmente, Felicity aceitara a defesa de Vidal. Mas, ento, ele fora visit-las e, depois de inicialmente se comportar de modo gentil, comeara a trat-la 
com desdm, afastando-se o mximo possvel, deixando claro que no gostava dela. Seu corao adolescente vulnervel sofrer muito com isso.
      No momento em que o vira pela primeira vez, saindo do carro que dirigira de Londres at sua casa, Fliss havia ficado entusiasmada, desenvolvendo uma grande 
paixo por ele. Lembrava-se vividamente do dia em que entrara no banheiro e o encontrara fazendo a barba. Seu olhar estupefato se fixara no tronco nu.  claro que 
esse tipo de intimidade havia deixado suas fantasias adolescentes fora de controle. A maioria dos habitantes da casa eram mulheres, de modo que a viso de um tronco 
masculino nu despertar a curiosidade de estud-lo em segredo, mas o fato de o peito nu pertencer a Vidal...
      Ela se sentia quase doente com tanta emoo quando finalmente conseguira sair do banheiro, sua imaginao solta, conjurando vrios cenrios em que ela no 
s olhava para ele, mas tambm ficava prxima.
      Agora, parecia normal zombar de sua ingenuidade aos  dezesseis anos. Contudo, como naquela poca, continuava pouco familiarizada com a intimidade sexual.
      Fliss virou-se desajeitadamente. O fato era que no havia para onde fugir da realidade de seu estado virgem. No importava quantas barreiras de defesa tivesse 
construdo em torno de si, no importava quo forte fosse  aura de confiana feminina que aprendera a aparentar, ela no podia fugir da verdade.
      Qual  o problema?, Ela questionou a si mesma. Estava sexualmente inativa havia anos. Fora uma deciso que tomara por conta prpria e desejava mant-la. O 
ritmo da vida moderna, a necessidade de estabelecer sua carreira, de alguma forma a impedira de encontrar um homem que desejasse o suficiente para abandonar o passado.
      Seria pura auto indulgncia sentir pena de si mesma. De acordo com os padres de muitas pessoas, Fliss sabia que sua infncia fora privilegiada. Ainda se considerava 
privilegiada, e no apenas porque tivera uma me to maravilhosa.
      Com os avs e a me mortos, a grande casa parecia to vazia e, ao mesmo tempo, cheia de lembranas dolorosas. Antes da crise do mercado imobilirio, Fliss 
fora abordada por um construtor que lhe oferecera uma grande quantia pela casa. Depois de tentar adivinhar o que a me gostaria que ela fizesse, Fliss aceitara a 
proposta, vendera a casa e comprara um apartamento. Seu emprego no departamento de turismo da cidade a mantinha ocupada. Tinha muitos amigos, embora muitos de seus 
colegas de escola estivessem se casando e fazendo planos para o novo "ninho", e suas trs melhores amigas, ainda solteiras como ela, viviam e trabalhavam no exterior.
      Uma breve batida na porta do quarto fez com que Fliss levantasse da cama e ficasse tensa, esperando a porta abrir e Rosa aparecer com ar de desaprovao.
      No entanto, no foi Rosa quem entrou no quarto, foi Vidal. Ele vestia uma camisa mais casual e uma cala de algodo. Havia tomado banho, a julgar pela aparncia 
ainda mida do cabelo penteado para trs. O corao de Fliss bateu em ritmo dolorosamente lento. A sensao de intimidade causada pela presena dele no quarto trouxe 
de volta muitas lembranas do passado, deixando-a desconfortvel, mesmo antes de a porta ser fechada.
      Mais uma vez, Vidal entrou em seu quarto...
      No! Ela no permitiria ser arrastada para aquele lugar obscuro de agonia que armazenava tantas lembranas. Ela precisava se concentrar no presente, no no 
passado. Era ela quem deveria desafiar e criticar Vidal, no o contrrio.
      Reunindo foras, Fliss perguntou:
      - Por que voc mentiu sobre sua me estar aqui?
      - Minha me precisou visitar uma amiga que est doente. Eu no estava ciente de sua ausncia at Rosa me informar.
      - Rosa precisa lhe dizer onde est sua me? Tpico do tipo de homem que voc , precisar de um subalterno para informar o paradeiro da prpria me.
      - Para sua informao, Rosa no  uma subalterna. E no pretendo discutir meu relacionamento com minha me com voc.
      - No, tenho certeza de que voc no quer - Fliss respondeu severamente. - Afinal, , em grande parte, por sua causa que eu nunca tive um relacionamento com 
meu pai. Foi voc quem interceptou a carta que escrevi para ele. E foi voc quem foi at a Inglaterra e exigiu que minha me me convencesse a no tentar contat-lo 
novamente.
      - Sua me acreditava que no teria sido bom para voc continuar escrevendo para Felipe.
      - Ento, foi para meu bem que voc impediu que eu me comunicasse com ele, n? - O tom da voz de Fliss ficou frio e sarcstico quando a lembrana de toda angstia 
e humilhao causadas por Vidal inundaram sua mente. Ele fora cruel e arrogante. Disposto a destruir os outros, sem sentir remorso, para que pudesse fazer tudo a 
sua maneira. - Voc no tinha o direito de me impedir de conhecer meu pai ou negar-me o direito de tentar saber se ao menos ele me amava. Mas sabemos que amor no 
 um conceito que uma pessoa como voc compreenda, no  mesmo, Vidal?
      Fliss pde sentir a dor de suas emoes nas lgrimas que ameaavam fluir de seus olhos. Lgrimas!
      Ela nunca, jamais, deveria chorar na frente desse homem. No poderia revelar qualquer fraqueza. Nunca.
      - O que voc sabe sobre o amor, sobre amar algum? - Fliss lanou acusaes como meio de se defender. Diria e faria qualquer coisa para impedi-lo de perceber 
a dor que suas palavras lhe causaram. - Voc no sabe o que  amor!
      Ela no fazia idia do que realmente estava dizendo. As palavras simplesmente saam de sua boca. Elas vinham de um infindvel poo de profunda dor dentro dela.
      - E voc sabe? Voc, que... - Vidal tambm estava furioso. Aproximou-se dela, sacudindo a cabea em sinal de desgosto e parou de falar.
      Fliss sabia perfeitamente bem o que ele estava prestes a dizer e qual acusao estava prestes fazer. Agora, pnico e dor a deixavam  merc dele.
      - No me toque - ela ordenou, afastando-se dele com a voz trmula de pavor.
      - Voc pode parar com a encenao, Felicity. - Imediatamente, a raiva de Vidal foi substituda por um olhar de desprezo. - Ambos sabemos que  encenao, antes 
que voc tente negar e mentir ainda mais para si mesma.
      Os nveis de pnico de Felicity estavam elevadssimos e fora de controle, derrotando-a enquanto lutava para racionalizar suas reaes e emoes.
      As lembranas haviam chegado perigosamente perto, confundindo o presente com o passado. Seu corao estava pulando dentro do peito e ela voltou a ter  dezesseis 
anos, lutando desesperadamente contra a confuso de sentimentos proibidos e assustadores.
      - Eu sei no que voc est pensando - ela disse - mas voc est errado. Eu no quero voc. Nunca quis.
      - Querer a mim?
      O silncio no quarto era como o centro de uma tempestade. Como se ela soubesse que o perigo estava l e logo consumiria. E no havia como escapar.
      - Querer a mim? Assim, voc quer dizer? - Vidal disse suavemente.
      "Assim" significava ser arrastada at seus braos e, em seguida, ficar presa entre ele e a parede atrs dela, enquanto ele a pressionava contra seu corpo de 
maneira to ntima que ela podia sentir os msculos rgidos debaixo da pele que os cobria. Ao contrrio dela, o corao dele estava calmo e determinado. O batimento 
cardaco de um predador vitorioso que havia conseguido capturar sua presa.
      Foi assim que a princesa moura se sentira h muitos anos quando fora raptada?
      A pulsao de Fliss acelerou em uma dana primitiva selvagem que roubou sua capacidade de pensar ou mesmo sentir racionalmente. Ela sentiu uma mistura de medo 
e triunfo. Medo por sua independncia, medo do clamor selvagem que ecoava dentro dela. E triunfo porque fora capaz de conduzir o homem que a segurava para alm do 
prprio autocontrole. Porque conseguira violar algo nele. Contudo, o preo dessa vitria seria permitir que ele exercesse seu poder sobre ela.
      Uma confuso de pensamentos e sentimentos se agitou dentro dela, transformando-a em uma verso de si mesma que mal reconhecia.
      Vidal sabia que no deveria fazer isso, mas, de alguma forma, no conseguia parar. Seu autocontrole foi dominado por infinitas noites em que despertara de 
sonhos proibidos em que a abraava assim. Ela no tinha mais  dezesseis anos; no era proibida de acordo com seu prprio cdigo moral, mesmo que seu orgulho queimasse 
s de pensar em desej-la.
      A menina de olhos arregalados, cheios de inocncia e sob o domnio da primeira experincia de desejar sexualmente um homem, nunca existira em outro lugar alm 
de sua imaginao. Por muitas noites ele ficara sem dormir e atormentado; a cama em que ela se deitara estava longe de ser casta.
      Quando ele inclinou a cabea em direo a ela, sentiu o corao bater e o calor suave dos seios pressionados contra o peito. Desejou ardentemente tirar a camisa 
que os cobria, de modo que pudesse revelar sua perfeio. Desejou toc-los para que pudesse acariciar os mamilos rijos com os dedos. Lev-los-ia at a boca e os 
acariciaria at que o corpo dela se arqueasse, desejando ser possudo.
      No! Ele no devia fazer isso.
      Vidal fez meno de solt-la, mas Fliss estremeceu violentamente, emitindo um som no fundo da garanta, em resposta a sua negao.
      Vidal a olhou nos olhos, forando-a a olhar para ele. De perto, os olhos dele no eram de uma nica cor, mas de vrios tons em uma combinao de topzio com 
dourado. A intensidade do olhar de Vidal era estonteante. A batida pesada do corao dele comandava que o dela acompanhasse o mesmo ritmo.
      Ele iria beij-la, e ela sentiria a dominao fria e implacvel daqueles lbios. Fliss abriu a boca em um protesto contra o que ele estava fazendo, no em 
sinal de sua aceitao dcil da situao, e certamente no em antecipao.
      Ainda assim...
      Ainda assim, sob suas roupas, sob a blusa e o simples suti de cor neutra, os seios comearam a arder com uma sensao que parecia ter se espalhado da mo 
dele sobre os mamilos. Fliss estremeceu, forada a admitir para si mesma que aquilo que seu corpo sentia e que aquele ardor dentro dela estavam sinalizando no era 
rejeio. Pelo contrrio, era um desejo crescente que percorria suas veias como prazer lquido, um prazer que perturbava seus sentidos e arruinava seu autocontrole, 
substituindo-o por um desejo crescente.
      A respirao de Vidal aquecia sua pele; era limpa e ligeiramente mentolada. Sob o perfume da pele recm-lavada, ela percebeu outra coisa, algo primitivo e 
perigoso para uma mulher cuja sensualidade havia quebrado as barreiras do autocontrole. O cheiro da masculinidade crua, que gritava para que ela se aproximasse dele.
      Seus olhares se encontraram e lutaram arduamente pela supremacia. Em seguida, a boca dele estava sobre a dela. A presso daqueles lbios a fez sentir como 
se estivesse flutuando, causando uma exploso de prazer que preencheu a parte inferior de seu corpo com desejo liquefeito.
      Fliss tentou lutar contra o que estava sentindo. Emitiu um dbil som. Pde senti-lo reverberando na garganta, um som de protesto, tinha certeza. Embora seus 
ouvidos interpretassem como um gemido de necessidade. Uma necessidade que aumentou imediatamente com a presso insistente do corpo de Vidal sobre o dela, enquanto 
sua lngua possua a suavidade ntima de sua boca, investindo, levando-a para um lugar escuro e perigoso de sensualidade. O corpo dela estava em chamas, latejando 
em resposta a ele.
      Ele fechou os olhos...
      Vidal sentiu a fora do prprio desejo oscilando atravs dele, derrubando barreiras dentro dele, consideradas impenetrveis. Quanto mais ele tentava recuperar 
o controle, mais selvagem era sua reao. Raiva e desejo masculino fora de controle. Cada um deles era perigoso por si s, mas incitar ambos, como fizera essa mulher 
que ele segurava, e a reao qumica entre eles, tinha o poder de acabar com o respeito de um homem e com sua crena em si mesmo.
      Atrs das plpebras fechadas, Vidal a viu da forma que seu corpo mais desejava: nua, ansiosa para receber a paixo masculina que havia desencadeado, oferecendo-se 
a ele. Sua pele branca perolada com o orvalho da prpria excitao, os cumes rosados dos seios, rijos de prazer,  procura das carcias de seus dedos e lbios.
      L fora, no jardim, o cair da noite ativou o sistema de iluminao. A repentina rajada de luz fez com que Vidal abrisse os olhos e percebesse o que estava 
fazendo.
      Amaldioando-se mentalmente, ele afastou-se abruptamente de Fliss.
      O choque entre a transio de um beijo to ntimo e a realidade de quem lhe dera aquele beijo fizeram com que Fliss estremecesse de repulsa de si mesma. Mas, 
antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, antes que pudesse dizer a Vidal o que pensava dele, ele comeou a falar com ela. Como se o que aquilo nunca tivesse acontecido.
      - Vim at aqui para dizer que amanh ser um novo comeo, pois encontraremos o advogado de seu pai s 10 horas. Rosa vai mandar algum trazer seu caf, j 
que minha me s deve voltar amanh. Tambm gostaria de lhe dizer que qualquer tentativa futura para me convencer a satisfazer seus desejos carnais est to fadada 
ao fracasso quanto esta. - Ele exibiu um olhar frio de insulto. - Material de segunda mo nunca me atraiu.
      Material de segunda mo?
      Tremendo de raiva pelo insulto, Fliss perdeu a cabea.
      - Foi voc quem comeou isso, no eu. E... E voc est enganado sobre mim. Sempre esteve. O que voc viu...
      - O que vi foi uma menina de  dezesseis anos deitada na cama de sua me, permitindo que um palhao a acariciasse e tentasse possu-la para se gabar para o 
resto do time de futebol.
      - Saia! - Fliss ordenou, erguendo a voz com raiva. - V embora!
      Ele afastou-se dela e saiu do quarto.
      Assim que ela conseguiu se mover, correu at a porta e girou a chave, e as lgrimas de raiva e vergonha comearam a escorrer pelo seu rosto.
      
      
      
      
    CAPTULO TRS
      
      
      
      
      Era tarde demais para tentar conter as lembranas. Faziam parte dela, estavam em cada detalhe.
      Fliss sentou-se em uma das cadeiras e apoiou a cabea nas mos.
      Ficara chocada e magoada quando Vidal disse a ela que havia interceptado a carta que escrevera ao pai. Um ato to cruel, vindo de algum que ela colocava em 
um pedestal, magoava muito. Rejeio pelo pai e sua famlia, algo que sempre tentara fingir que no importava, de repente tornou-se real e doloroso. Ela havia visto 
o carinho com que Vidal tratara sua me, o que piorara ainda mais a sensao de rejeio. Ele no era frio com as duas, apenas com ela.
      Quando a me de Fliss informou que iria jantar com Vidal, como forma de agradecimento pela estadia, Fliss perguntara se poderia convidar algumas amigas da 
escola para celebrar o final do ano letivo. A me concordara, na condio de que convidasse meia dzia de colegas. Isso parecera justo para Fliss, o que fizera com 
que ficasse horrorizada quando o encontro fora interrompido pela chegada de dezenas de adolescentes, muitos dos quais j estavam embriagados.
      Ela tentou convenc-los a sair, mas isso resultou em vaias e at mesmo em comportamento mais agitado. Um dos meninos, Rory, tinha sido o lder de uma multido 
selvagem da escola. Um valento arrogante, que jogava no time de futebol da escola. Ele subiu ao segundo andar com uma menina que chegara com ele, um estranho para 
Fliss. Ela os seguiu e ficou horrorizada quando entraram no quarto de sua me.
      A garota fora embora e Rory, furioso com Fliss, que tinha "estragado sua diverso", a agarrara e puxara para a cama. As aes dele transformaram a raiva de 
Fliss em medo. Ela tentara se afastar, mas ele rira dela, derramando a cidra que trouxera consigo sobre ela e empurrando-a de costas sobre cama.
      Fora quando a porta abrira e ela vira sua me e Vidal parados l. No incio, ela ficara aliviada, mas depois vira a expresso no rosto de Vidal. E Rory tambm, 
porque fora quando ele fizera o comentrio rude e completamente falso sobre o resto do time de futebol, seguido de uma declarao igualmente falsa.
      - Ela adora. No se cansa disso. Pergunte a qualquer um dos rapazes. Todos sabem que ela sempre est a fim. Uma ninfomanaca,  isso o que ela .
      Fliss ainda pode lembrar-se do sentimento de descrena dentro dela, impossibilitando que falasse ou se movesse, havia ficado parada, entorpecida de horror, 
enquanto Vidal puxava Rory da cama e o arrastava para baixo.
      Sua me estava chocada.
      - Oh, Fliss... - ecoara em seus ouvidos.
      Mais tarde, naturalmente, ela explicara  me o que havia acontecido e, felizmente, a me acreditara nela. Contudo, Vidal j estava a caminho da Espanha. A 
dor que ela sentira ao ver o desprezo e dio nos olhos dele transformara a paixo que sentia por ele em revolta e raiva.
      Fliss nunca retornara  escola. Ela e as trs meninas que se tornaram suas melhores amigas foram para uma instituio de ensino de classe mais alta, graas 
s boas notas nos exames, e Fliss prometera a si mesma que deixaria sua me orgulhosa. Nunca mais permitiria que outro homem olhasse para ela como Vidal olhara. 
No revelara a ningum o que o julgamento errneo dele naquela noite havia feito com ela. Era uma vergonha privada. E, agora, Vidal ressuscitara essa vergonha.
      No andar de baixo, na biblioteca, Vidal permaneceu imvel e plido, olhando vagamente para o horizonte, ignorando a grandeza de seu entorno. As estantes estavam 
repletas de livros de capa de couro, os ttulos pintados com tinta dourada,  essncia de couro e papel tomavam conta do recinto.
      Vidal sabia ser um homem de princpios fortes, com paixes e convices profundas sobre sua ascendncia e seu dever com ela e com as pessoas que dependiam 
dele. Nunca antes a fora de tais paixes transbordara em fria da forma como Felicity provocara nele. Nunca antes ele chegara to perto de ter o autocontrole consumido 
em um fogo to intenso.
      Se no tivesse sido interrompido quando as luzes se acenderam...
      Teria parado de qualquer maneira, garantiu a si mesmo. Mas uma voz interna perguntou suavemente: Teria? Ou ser que continuaria a ser consumido pelas prprias 
emoes fora de controle, at que Felicity estivesse nua sobre a cama, debaixo dele, enquanto ele satisfazia o desejo que, at ento, julgara ter desaparecido?
      Vidal fechou os olhos e depois abriu novamente. Pensou que havia deixado o passado para trs, mas Felicity o trouxe de volta  vida como uma vingana.
      Ele precisava acabar com aquilo. Precisava se afastar do passado. Precisava se livrar dele e, para que isso acontecesse, precisa se livrar de Felicity.
      Vidal comprimiu os lbios. Assim que encontrassem com o advogado de Felipe e fossem feitos os preparativos para que Vidal comprasse de Felicity a casa de seu 
pai havia deixado como herana, ela sairia de sua vida permanentemente.
      No andar de cima, no banheiro contguo ao quarto,  porta foi trancada com segurana, e Fliss ficou imvel sob o jato de gua do chuveiro poderoso. Ela estava 
alm das lgrimas, alm da raiva, alm de qualquer outra coisa que no a sensao de que poderia ficar ali, debaixo da gua, para o resto de sua vida. Contudo, no 
havia quantidade de gua que fosse suficiente para lavar a mancha estampada em seu orgulho pela forma como respondeu ao beijo de Vidal.
      Saindo do banho, ela pegou uma toalha. Talvez no devesse ter ido para l, afinal. Mas era isso que Vidal queria, no era? Na carta que ele mandara como executor 
de seu pai, aconselhando-a sobre o fato de o pai lhe ter deixado uma casa, dissera que no havia necessidade. No havia necessidade no que dizia respeito a ele, 
mas, para ela, havia, Fliss lembrou a si mesma enquanto secava os cabelos. Seu corpo estava ocultado do prprio olhar pela toalha grossa e macia enrolada em volta 
de si que a cobria dos seios at os ps. Ela no queria olhar para a pele que a trara. Ou havia sido ela quem havia se trado? Se ela tivesse mais experincia, 
mais amantes, o estilo de vida e os homens que Vidal a acusara de ter, em vez de recusar deliberadamente que sua sexualidade e sensualidade conhecessem os prazeres 
para os quais foram feitas, certamente lidaria melhor com o que havia acontecido.
      Ela no podia ter desejado Vidal. Isso era impossvel.
      Seu corao comeou a bater bruscamente, e ela colocou a mo sobre o peito para acalm-lo.
      Era impossvel, no era? Uma mulher teria que estar desprovida de orgulho prprio para chegar ao ponto de se permitir sentir qualquer desejo por um homem como 
Vidal. O passado estava fazendo isso com ela, prendendo-a, impedindo que seguisse em frente. O passado e as feridas no cicatrizadas causadas por Vidal...
      Foi o som da porta de seu quarto sacudindo que interrompeu o sono inquieto de Fliss. Ela s conseguiu dormir depois de passar horas acordada com o corpo tenso 
e a mente remoendo sentimentos de fria e paixo. No incio, a imagem em sua mente era de Vidal, seus longos dedos em volta da maaneta da porta. Imediatamente, 
uma onda de percepo queimou atravs de seu corpo, despertando um ardor sexual desconhecido e indesejado que fez com que se chocasse com a realidade e sentisse 
vergonha.
      A escurido da noite, com sua sensualidade e tormentos, havia acabado. Era de manh agora. A luz do sol inundava o quarto atravs das janelas. Fliss se esqueceu 
de fechar as cortinas na noite anterior.
      Ainda ouvia uma batida fraca na porta, muito hesitante para ser de um homem como Vidal.
      Informando que estava indo abrir a porta, Fliss saiu da cama, e encontrou uma jovem empregada, com olhar nervoso, do lado de fora da porta. Ela empurrou um 
carrinho com o caf da manh de Fliss.
      Agradecendo, Fliss olhou rapidamente para o relgio. J passava das 8 horas, encontraria com o advogado de seu falecido pai s 10 horas. No fazia idia de 
onde ficava o escritrio ou de quanto tempo precisava para chegar l. Fliss preferia ir sozinha, mas, obviamente, com Vidal nomeado como ltimo executor de Felipe, 
isso seria impossvel.
      Depois que a empregada saiu, Fliss bebeu alguns goles do delicioso caf aromtico e deu pequenas mordidas no pozinho quente coberto com gelia de laranja. 
Sua me havia lhe contato sobre essa gelia de laranja especial, era a preferida da famlia, feita com laranjas de suas prprias plantaes. O sabor a fez lembrar-se 
da me, e isso, por sua vez, ajudou a acalm-la.
      Meia hora depois, ela j estava pronta. Vestiu uma camiseta limpa e saia escura simples. Penteou o cabelo para trs e o prendeu com uma presilha, revelando 
a delicadeza de seus traos e o comprimento do pescoo delgado. Fliss automaticamente tocou o pingente de ouro em forma de corao que pendia no pescoo em uma corrente 
dourada. Foi um presente que seu pai dera a sua me. Ela o usara a vida toda e, agora, Fliss usava em sua memria.
      Passou rimei e batom. Estava pronta. Bem a tempo, ela refletiu, quando ouviu outra batida na porta, uma batida mais confiante desta vez. Quando abriu a porta 
do quarto, encontrou Rosa com expresso to desconfiada quanto  da noite anterior.
      - Voc deve ir at a biblioteca. Vou mostrar o caminho - ela anunciou em espanhol, avaliando Fliss com um olhar penetrante, analisando-a de uma forma que fez 
Fliss sentir como se sua aparncia deixasse a desejar, comparada com a elegncia que um homem como Vidal aprovava. Uma mulher sofisticada, com roupas de marca, com 
aquele ar de superioridade que sua me lhe ensinara ser caracterstico de mulheres da alta classe espanhola.
      E da? Ela estava ali para falar com o advogado de seu pai, no para impressionar um homem que s lhe causava averso e desprezo, Fliss lembrou a si mesma.
      Nenhum outro som alm dos passos delas na escada rompia o silncio do interior sombrio da casa enquanto Rosa a acompanhava at a biblioteca. Quando chegaram, 
Rosa abriu a porta e disse que ela deveria esperar por Vidal.
      Normalmente, Fliss no teria resistido e leria os ttulos dos livros nas prateleiras que preenchiam as paredes da sala de cima a baixo, mas, por alguma razo, 
estava muito agitada e s queria que a reunio acabasse logo.
      Acabasse logo? Por que estava to ansiosa? Ela conhecia o contedo do testamento do pai. Deixara para ela a casa que ele mesmo herdara da av de Vidal, a propriedade 
ducal no Vale Lecrin, alm de uma pequena quantia em dinheiro, enquanto as terras agrcolas que cercam a propriedade foram devolvidas  propriedade principal.
      Ela estava errada em achar que havia uma mensagem para ela nessa herana? Ou era apenas sua esperana de que houvesse o toque de amor de um pai cheio de arrependimento 
por um relacionamento que nunca existira? Era tolice sua ansiar encontrar algo assim? Algum fantasma sombrio de arrependimento para aquecer seu corao, esperando 
por ela na casa que herdaria do pai?
      Fliss sabia que, se Vidal tentasse adivinhar o que ela estava pensando, destruiria suas esperanas frgeis e a deixaria sem nada para amenizar a rejeio de 
sua infncia. Era por isso que ele no devia saber por que ela havia ido para l, em vez de ficar na Inglaterra como ele gostaria. Na casa onde seu pai vivera, ela 
finalmente encontraria algo para aliviar a dor com a qual havia crescido. Afinal, seu pai deveria ter tido alguma inteno ao deix-la para ela. Um ato como esse 
era, por si s, um ato de amor, e ela esperara muito tempo por esse amor.
      Contudo, gostaria que a casa no estivesse to perto do castelo da famlia de Vidal.
      Embora fosse grandiosa, Fliss sabia pelo que a me lhe contara no se comparava  magnificncia do castelo ducal, no idilicamente belo Vale Lecrin ao sul de 
Granada.
      Situado a sudoeste dos declives de Serra Nevada, ao longo da costa, com seu clima subtropical, o vale tinha sido muito amado pelos mouros, que referiam-se 
 regio como o "Vale da Felicidade". A voz da me estivera repleta de emoo quando ela contara a Fliss que, na primavera, o ar tinha cheiro das flores dos pomares 
que rodeavam o castelo.
      Azeitonas, amndoas, cerejas e vinho das videiras cobriam muitos hectares de terras e eram produzidos em abundncia pela propriedade ducal. A casa do pai de 
Fliss era chamada "Casa da Amndoa", porque ficava perto do pomar de amndoas.
      Vidal estava tentando intimid-la fazendo com que ficasse sozinha nessa sala to descaradamente masculina? Praticamente presa em sua austera masculinidade? 
Ela perguntou a si mesma, retornando os pensamentos ao momento presente. Por que Rosa simplesmente no a chamara quando Vidal estivesse pronto para sair? Por que 
ela precisava esperar ali, na sala que retratava com tanta fora o poder e arrogncia masculina?
      Como se seus pensamentos hostis de alguma forma o invocassem, a porta se abriu e Vidal entrou.
      Ele vestia uma cala preta justa que revelava a firmeza dos quadris e esticava com o movimento das coxas, forando o olhar na direo dos msculos daquela 
regio. Como algum acusado de traio e declarado culpado, sem nada a perder, ela olhou corajosamente para cima, admirando seu torso.
      Consternada, Fliss percebeu que sua imaginao tambm a traiu e fornecia imagens totalmente indesejadas de como ele seria por baixo daquela camisa. Imagens 
ricas em detalhes, acrescidas das lembranas da noite anterior.
      Somente quando seu olhar subiu at o pescoo, Fliss finalmente foi capaz de arrast-lo de volta para os sapatos polidos. Ficaria paralisada se olhasse para 
a boca dele ou para aqueles olhos cor de topzio.
      Ela se sentia um pouco ofegante e trmula. Fliss insistiu para si mesma que isso era causado pelo desgosto e desagrado. No pelo desejo feminino.
      O corao de Fliss comeou a golpear dentro do peito, como se emitisse um sinal de aviso. Seus lbios comearam a queimar. Ela queria lamb-los desesperadamente, 
para resfri-los, para impor o toque da prpria lngua sobre eles e para remover a lembrana do beijo de Vidal. Seu corpo estava sendo muito traioeiro. De onde 
tinha vindo isso e por qu? Ela tentou pensar sobre o pai e lembrar-se do motivo pelo qual estava ali.
      Respirando fundo, disse a Vidal:
      - So quase 10 horas. Na noite passada voc me alertou para que no me atrasasse para o nosso compromisso com o advogado, mas parece que a mesma regra no 
se aplica a voc.
      Ele franziu o cenho, obviamente desgostando do fato de ela se atrever a question-lo. Ele respondeu friamente:
      - Como voc disse, so quase 10 horas, mas, pelo que sei, o Sr. Gonzles ainda no chegou. Ento, estou adiantado.
      - O advogado vem aqui? - Fliss perguntou, ignorando o cinismo dele.
       bvio que um homem to nobre e to arrogante quanto Vidal esperava que os advogados fossem at ele, no o contrrio.
      O som da campainha ecoando atravs do corredor com piso de mrmore silenciou qualquer comentrio adicional que Fliss quisesse fazer.
      Sem dvida nenhuma de que ele havia triunfado sobre ela, Vidal se afastou. Fliss pde ouvi-lo cumprimentar e receber o outro homem, cuja voz tambm j podia 
ouvir.
      - Caf na biblioteca, por favor, Rosa - Fliss ouviu Vidal instruindo a governanta enquanto os dois homens se aproximavam da porta aberta.
      Ela no tinha motivo algum para se sentir apreensiva, ou mesmo nervosa, mas era exatamente como est no momento, Fliss admitiu para si mesma quando Vidal conduziu 
o pequeno homem de terno escuro, que devia ser o Sr. Gonzles, para dentro da biblioteca e, em seguida, apresentou-o para Fliss.
      O advogado curvou-se de modo antiquado e formal, antes de estender a mo para cumpriment-la.
      - O Sr. Gonzles vai ler os termos do testamento do seu falecido pai. Aqueles que dizem respeito a voc. Conforme foi explicado na carta que enviei, como executor 
de seu pai, faz parte da minha funo realizar os ltimos desejos dele.
      Quando ele colocou os papis sobre a mesa de madeira escura, ao lado da lareira de mrmore, Fliss reconheceu o tom na voz de Vidal, o mesmo tom havia dito 
a ela que no havia necessidade de ir para a Espanha para ouvir o que j havia sido relatado na carta, mas Fliss se recusara a ser prejudicada por isso. O advogado, 
embora educado com ela, certamente estava do lado de Vidal, advertiu para si mesma. Portanto, era preciso estar atenta aos dois.
      - Meu falecido pai deixou sua casa para mim. Eu sei disso - Fliss concordou, depois que todos estavam sentados em volta da mesa. Ela foi interrompida quando 
a empregada chegou com o caf, que precisou ser servido e entregue a cada um eles com a devida formalidade antes que ficassem sozinhos novamente.
      - Felipe quis compensar voc pelo fato de no ter sido capaz de reconhec-la formal e publicamente enquanto estava vivo - disse o Sr. Gonzles calmamente.
      Fliss digeriu suas palavras em silncio.
      - Financeiramente...
      - Financeiramente, no preciso da herana de meu pai- Fliss interrompeu rapidamente.
      Ela no iria permitir que Vidal a diminusse ainda mais do que j fizera e sugerisse que havia sido o aspecto financeiro da herana que a levara at ali. A 
verdade era que ela preferia ter recebido uma carta pessoal do pai, proclamando seu amor por ela, no lugar de qualquer quantia em dinheiro.
      - Graas  generosidade de meus parentes ingleses, minha me e eu nunca sofremos financeiramente com a rejeio de meu pai. A tia av de minha me no nos 
rejeitou. Tinha considerao o bastante para querer nos ajudar. Ela se preocupou conosco quando os outros no o fizeram.
      Fliss ficou satisfeita em ser capaz de apontar para os dois homens que havia sido a famlia de sua me que as salvara da misria, que se preocupara com elas 
a ponto de querer fazer isso.
      Ela pde sentir o olhar de Vidal, mas no lhe daria a satisfao de olhar para ele para que pudesse mostrar o desprezo que sentia por ela.
      - H alguma pergunta que voc deseja fazer sobre o testamento de seu falecido pai antes de continuar? - o advogado indagou.
      Fliss respirou fundo. Ali estava a oportunidade de fazer a pergunta que tanto queria.
      - Tem uma coisa. - Ela virou-se um pouco na cadeira, de modo que ficou de frente para o advogado e no para Vidal, mas continuou ciente do fato de que Vidal 
a encarava. - Sei que houve um arranjo familiar para que meu pai se casasse com uma mulher que foi escolhida para ele pela av, mas, de acordo com a carta que voc 
me enviou, ele nunca se casou.
      - Isso est correto - concordou o Sr. Gonzles.
      - O que aconteceu? Por que ele no se casou com ela?
      - O Sr. Gonzles  incapaz de responder a essa pergunta.
      A voz incisiva de Vidal cortou o breve silncio que se seguiu  pergunta, fazendo com que Fliss se virasse para encar-lo.
      - No entanto, eu posso. Seu pai no se casou com Isabella y Fontera porque a famlia dela desistiu do acordo. Apesar de terem inventado outra desculpa,  provvel 
que tenham ficado sabendo do escndalo de seu pai. A sade dele deteriorou, portanto, no foram feitas outras tentativas para encontrar uma esposa. O que voc esperava 
ouvir? Que ele desistiu por culpa e remorso? Sinto desapont-la. Felipe no era o tipo de homem que iria contra nossa av.
      Fliss sentiu as unhas beliscando as palmas de sua mo quando cerrou os punhos de raiva. O olhar dourado fixou-se nela, tornando impossvel escapar da anlise 
aprofundada de Vidal. Ele a olhava de um jeito que parecia que iria apossar-se de sua mente e controlar seus pensamentos se ela permitisse. Mas,  claro, ele no 
conseguiria isso de jeito algum.
      O corao dela disparou dentro do peito. Mas era por absoluto desprezo por ele, Fliss garantiu a si mesma, no porque alguma parte tola de seu ser estava imaginando 
como seria ser possuda completamente por um homem como Vidal.
      - O que aconteceu no passado deve permanecer l, e acredito que voc ser muito mais feliz se permitir a si mesma deixar isso para trs.
      Fliss arrastou seus pensamentos de volta da perigosa sensualidade para onde haviam escapado. Prestou ateno no timbre agudo da voz de Vidal.
      - Se voc questionou sua me to antagonicamente quanto falou aqui, deve ter causado muita dor a ela ao nunca permitir que o assunto fosse esquecido.
      A insensibilidade da acusao dele quase deixou Fliss sem flego. Ela precisou lutar para no deix-lo perceber que havia encontrado facilmente seu ponto mais 
fraco e defendeu-se imediatamente:
      - Minha me no quis esquecer meu pai. Ela usou esta corrente que ele lhe deu at o dia de sua morte. Nunca deixou de am-lo.
      A corrente dourada com o pingente brilhava com o agitado movimento da pulsao de Fliss na base do pescoo. Vidal lembrava-se desse mesmo brilho intenso, porm 
com uma emoo diferente, no dia em que Felipe o colocara no pescoo da me de Fliss.
      Felipe comprara o colar em Granada. Encontrara com eles quando estavam a caminho para visitar Alhambra e informara que estava l devido a um negcio inesperado 
de famlia. Eles passaram por uma joalheria quando Felipe se juntara a eles. Quando Vidal contara que era aniversrio de Annabel, seu tio insistira em ir at a loja 
e comprar o colar para ela.
      Vidal sacudiu a cabea, arrastando os pensamentos de volta para o presente.
      - A casa  minha para fazer o que eu quiser, foi o que entendi - disse Fliss, desafiando Vidal a contradiz-la.
      - Isso  verdade - interveio o advogado. - Mas, como a casa era originalmente parte da propriedade ducal, faz sentido que Vidal a compre de voc. Afinal, voc 
no deseja responsabilizar-se por tal propriedade.
      - Voc quer comprar a casa? - ela desafiou Vidal, seu olhar estava fixo.
      - Sim. Certamente voc espera que eu compre, no? Como o Sr. Gonzles disse h pouco, a casa pertenceu originalmente  propriedade rural. Se voc se preocupa 
com o fato de que eu possa tentar engan-la quanto ao seu verdadeiro valor, e tenho certeza de que est, dada sua bvia hostilidade em relao a mim, asseguro-lhe 
de que no vou engan-la, e que ser avaliada de forma independente e profissional.
      Dando as costas para Vidal, Fliss disse rapidamente ao advogado:
      - Quero ver a casa antes de vend-la.
      Quando ele comeou franzir o cenho, ela disse ferozmente:
      - Meu pai viveu l. Era a casa dele.  natural que eu queira ir at l para ver onde e como ele viveu.
      O advogado parecia desconfortvel, olhando para Vidal, como se buscasse sua aprovao.
      - A casa pertence a mim - ela lembrou. - E, se quero ir at l, ningum pode me impedir.
      Houve um breve silncio, e ento Fliss ouviu Vidal bufando.
      - Tenho alguns negcios para tratar no castelo, Luis - ele disse ao advogado, usando seu primeiro nome pela primeira vez. - Levarei Felcity at l amanh, 
assim ela pode satisfazer sua curiosidade.
      Fliss percebeu que o advogado estava aliviado e agradecido quando Vidal se levantou, sinalizando que a reunio havia acabado.
      - Ns nos encontraremos novamente em alguns dias para concluir tudo isso - disse Vidal.
      Fliss percebeu que o advogado estava evitando olh-la nos olhos quando a cumprimentou, antes de partir, e ele e Vidal saram juntos da biblioteca, deixando-a 
sozinha. Sozinha.
      Ela estava sozinha agora. Completamente s, sem famlia. Ningum para apoi-la, ningum para proteg-la. Para proteg-la? De qu? De Vidal? Ou dos sentimentos 
que Vidal despertara nela e que faziam seu corpo responder de forma vergonhosa e traioeira apesar do que j sabia sobre ele?
      Tremendo, Fliss deixou de lado as perguntas indesejveis. De alguma forma ela baixou a guarda e isso fez com que passasse a ver Vidal como um homem. Havia 
sido um engano, era isso, que ela poderia deixar de lado e garantir que no acontecesse novamente. A cpia do testamento do pai, que o Sr. Gonzles havia trazido, 
estava sobre a mesa. Fliss a pegou, e sua ateno foi atrada para a assinatura do pai. Quantas vezes, quando criana, ela havia sussurrado aquele nome repetidas 
vezes para si mesma, como se fosse algum tipo de mgica que faria com que o pai se tornasse parte de sua vida. Mas ele no fizera parte de sua vida, e ela no o 
encontraria na casa em que ele vivera. Como poderia encontrar se ele estava morto? Mesmo assim, ela precisava ir at l. Precisava ver com os prprios olhos.
      Por que Vidal no queria que ela fizesse isso?
      No! O motivo no era esse. Era por causa do pai, no por causa de Vidal.
      Fliss sentiu como se suas emoes fossem sufoc-la. Mal podia respirar com a fora dos prprios sentimentos. Precisava sair daquela casa. Precisava respirar 
o ar que no havia sido contaminado pela presena de Vidal.
      O corredor estava vazio quando ela passou por ele em direo  escada, na inteno de pegar a bolsa e os culos de sol. Ela iria sair e ver a cidade, limpar 
a mente da influncia indesejada que Vidal parecia exercer sobre ela.
      Dez minutos depois, da janela da biblioteca, Vidal observou Fliss sair. Se as coisas tivessem ocorrido a sua maneira, ela estaria indo para o aeroporto e de 
volta  Inglaterra. Permanentemente. J tinha preocupaes suficientes sem a presena dela. Lembrando-lhe de coisas que ele preferia ter deixado nas sombras do passado.
      Ele ainda no compreendia seu comportamento na noite anterior, nem sua incapacidade para impor sua vontade sobre seu corpo.
      
      
      
      
CAPTULO QUATRO
      
      
      
      
      Ela passou praticamente todo o dia explorando a cidade. A cidade, mas no Alhambra; ainda no estava pronta para isso. Sentiu-se muito fraca depois do encontro 
com Vidal pela manh. Vulnervel demais para visitar o local onde seu pai declarara pela primeira vez o amor por sua me, onde um menino testemunhara tudo e, em 
seguida, reportara  av.
      Ela almoou em um pequeno restaurante especializado em tapas. No estava com muita fome e, na verdade, achou que no fora justa com os deliciosos pratos que 
lhe foram servidos.
      Agora, depois de explorar o antigo bairro mouro da cidade, ela foi forada a admitir que seu corpo no agenta mais o excesso de caminhada e o sol forte. Ele 
ansiava pela sombra fresca do jardim em frente ao seu quarto.
      A mesma moa tmida que havia trazido o caf da manh abriu a porta quando Fliss tocou a campainha.
      Felizmente no havia sinal de Vidal, e a porta da biblioteca permanecia fechada. Perguntou  empregada qual o caminho para chegar ao jardim, agradecendo a 
ela quando explicou que deveria seguir por um corredor de acesso da parte de trs e passar por uma porta.
      Enquanto Fliss estava fora, teve a oportunidade de comprar algumas roupas para completar acrescentar s que trazido. J que estava na casa da famlia Salvatore, 
e no no hotel que havia reservado, percebeu que precisaria de mais roupas. Depois de provar vrias peas, optou por um vestido de algodo em seu tom preferido da 
cor creme, muito leve e fresco, com detalhes simples em azul-claro, e tambm comprou bermudas e alguns topes. Roupas prticas e fceis de usar, em que ela se sentiria 
muito mais confortvel do que em calas jeans.
      No quarto, depois de um banho rpido, colocou o vestido creme, calando as sandlias que havia trazido consigo. O vestido era agradavelmente leve e fresco.
      De volta ao primeiro andar, ela encontrou rapidamente o corredor do qual a empregada havia falado, e aporta que levava para uma passagem dava para o jardim. 
Quando ela saiu da escurido do corredor para o brilho da luz do sol, Fliss fez uma pausa momentnea. Percebeu que no estava sozinha no jardim.
      Podia ver uma mulher sentada em uma mesa de metal ornamentado, bebendo uma xcara de caf. S pode ser a me de Vidal. Tinham os mesmos olhos, s que, no caso 
da me de Vidal, o olhar era suave e amigvel, em vez de frio e cheio de desprezo.
      - Obviamente, voc  a filha de Annabel - disse a duquesa, antes que Fliss pudesse recuar e acrescentou: -  muito parecida com ela. Mas acho que tambm tem 
alguns traos de seu pai. Posso ver em sua expresso. Por favor, venha e sente-se aqui ao meu lado - ela convidou, batendo na cadeira vazia ao lado dela.
      Hesitante, Fliss caminhou at ela.
      Ela era alta e magra, com cabelos escuros riscados de cinza e presos em um estilo elegante e formal que ficava muito bem nas mulheres espanholas. A me de 
Vidal sorriu e se desculpou:
      - Sinto muito no ter estado aqui para receb-la ontem. Vidal explicou que uma amiga muito querida no estava bem?
      Uma pequena sombra obscureceu seus olhos, fazendo com que Fliss falasse educadamente:
      - Espero que sua amiga esteja se sentindo melhor.
      - Ela  muito corajosa. Tem a doena de Parkinson, mas faz pouco caso disso. Estudamos juntas e nos conhecemos a vida toda. Vidal disse que amanh levar voc 
para conhecer a casa de seu pai. Gostaria de ir com vocs, mas o marido de minha amiga precisou se ausentar inesperadamente para tratar de negcios e prometi fazer 
companhia a ela at que ele volte.
      - No tem problema. Quero dizer, eu compreendo... - disse Fliss com sinceridade.
      Fliss parou de falar quando percebeu que a duquesa estava olhando para alm dela, nas sombras da casa. Ela abriu um grande sorriso e exclamou:
      - Ah, Vidal, a est voc! Eu estava dizendo a Fliss como lamento no poder acompanh-los ao castelo.
      Vidal.
      Por que ela sentiu um frio na espinha? Por que, repentinamente, ela se sentia to consciente do prprio corpo e de suas reaes de feminilidade e de sua sensualidade? 
Ela deveria parar de reagir dessa forma. Deveria ignorar esses sentimentos indesejveis, em vez de se concentrar neles.
      - Tenho certeza de que Felicity compreende, mama. Como est Ceclia?
      Imediatamente ela registrou a voz de Vidal. Imediatamente, o corao de Fliss acelerou, deixando-a quase sem ar. Era de dio, ela garantiu para si mesma. Porque 
ela o odiava por ter trado sua me.
      - Ela est muito fraca e cansada - a duquesa respondeu a Vidal. - Por que voc no se junta a ns por alguns minutos? Vou pedir que nos sirvam caf. Fliss 
parece muito com a me em seu lindo vestido, no acha? - ela perguntou.
      - Suspeito que Felicity tenha uma personalidade muito diferente da me.
      - Sim, eu tenho e fico feliz com isso. A gentileza da minha me fez com que fosse tratada de maneira muito desagradvel.
      Fliss percebeu o rosto da duquesa empalidecer e Vidal comprimir os lbios. Seu comentrio no fora adequado para uma hspede fazer diante da anfitri, mas 
ela no havia pedido para ficar ali com a famlia de seu falecido pai, Fliss concluiu, antes de dar meia-volta e caminhar para o lado oposto do jardim, querendo 
se afastar o mximo possvel de Vidal.
      A nica razo para ela ter escolhido escapar para outro canto do jardim e no para dentro da casa foi que, para entrar na casa, teria que passar por ele. Saber 
que seu corpo estava vergonhosamente vulnervel a ele era algo muito inesperado. Agora, escondida na prgula coberta de rosas, Fliss colocou a mo sobre o peito 
e tentou se acalmar.
      As ptalas das rosas tremeram quando seu esconderijo foi invadido. Uma mo masculina bronzeada afastou os ramos, e as ptalas cor-de-rosa caram ao cho quando 
Vidal entrou na prgula.
      Sem qualquer introduo, Vidal deu incio ao seu ataque verbal.
      - Voc pode ser to hostil quanto quiser comigo, mas no vou permitir que magoe ou chateie minha me. Principalmente agora, que est preocupada com a sade 
da amiga. Minha me no fez outra coisa alm de trat-la com cortesia.
      -  verdade - Fliss foi forada a concordar. - Contudo, voc no  a pessoa indicada para dizer como devo me comportar, no ? Afinal, voc no pensou duas 
vezes antes de interceptar a carta que escrevi ao meu pai, no foi? - ela o acusou com veemncia, com a voz ligeiramente hesitante.
      Fliss tremia por dentro e por fora. Sua nica vontade era fugir da presena friamente crtica de Vidal antes que ela fizesse papel de idiota, dizendo que ele 
a julgara mal e que esse erro a magoara profundamente. E magoava at hoje.
      Evitando olhar para ele, ela comeou a andar depressa para o outro lado da prgula. Foi interrompida abruptamente quando escorregou nas ptalas que estavam 
no cho.
      A sensao das mos fortes segurando-a, dos braos fortes lhe dando apoio, fez com que sentisse gratido, mas, to logo seu corpo registrou o fato de que as 
mos e os braos pertenciam a Vidal, a gratido foi substituda por pnico. Freneticamente, Fliss lutou para se afastar, profundamente alarmada pela maneira como 
seu corpo j estava reagindo ao contato entre eles.
      Vidal no tinha interesse algum em ficar perto dela. Quando ela se virou, ele observou a luz do sol brilhando atravs do vestido de algodo fino, revelando 
as curvas femininas e, imediatamente, aquele corpo respondeu ao seu olhar. Agora, ela estava se debatendo em seus braos, os seios sacudindo com a agitao, a pele 
dela tocando a dele em uma carcia acetinada. O cheiro dela despertou um instinto que no podia ser negado. Um instinto que exigia que ele saboreasse a carne rosada 
dos lbios de Fliss, que possusse as curvas suaves e arredondadas dos seios, que mantivesse firme o ventre dela sobre sua sexualidade, agora intumescida.
      Na tentativa de afastar Vidal, Fliss estendeu uma das mos. Seu corpo entrou em choque quando seus dedos encontraram o calor do peito nu dele. Fliss olhou 
para ele e viu que a camisa Vidal estava quase completamente desabotoada. Ela fizera isso? Ser que abrira aqueles botes quando se agarrara a ele e depois, quando 
lutara para se afastar? A palma da mo dela descansou sobre a pele dourada e a fina camada de pelos escuros que desciam at o impressionante abdmen.
      Era o cheiro das rosas ou o perfume de Vidal que a deixara to fraca? Ela foi forada a chegar mais perto dele, seu corpo estava apoiado pela mo estendida 
em suas costas, aquecendo-a atravs do tecido fino do vestido. O olhar cor de topzio estava fixo nela.
      Um tremor sacudiu o corpo de Fliss como se o desejo que sentia por ele estivesse alm de sua capacidade de controle; aquele olhar, aquele toque, tudo poderia 
ser uma manobra deliberada para atra-lo, Vidal disse a si mesmo. Mas, enquanto sua mente considerava loucura responder a ela, seu corpo no tinha inibies. A raiva 
por seu corpo e pela mulher que segurava explodiu dentro dele.
      Fliss, cujas defesas j estavam instveis, cedeu sob o ataque feroz do beijo. Ela abriu os lbios trmulos para receber a lngua exigente, o peito intumescido 
sob a palma da mo de Vidal. Uma sensao latejante tomou conta da parte inferior de seu corpo e deu incio a uma insistente pulsao, que cresceu com a exploso 
de prazer causada pelos dedos de Vidal brincando na ponta de seus seios.
      Fliss nunca havia se considerado uma mulher cuja sensualidade tivesse, o poder de domin-la. Pelo contrrio, acreditava, em seus pensamentos mais ntimos, 
ter um desejo sexual insignificante. Mas agora, surpreendentemente, Vidal provara que esse julgamento estava errado. Sua excitao fora de controle e a necessidade 
de mais intimidade fez com que se sentisse como uma floresta sendo varrida pelo fogo, queimando qualquer coisa em seu caminho. Seu desejo de ter Vidal tocando a 
pele de seu seio surgiu muito antes de ele ter levantado seu suti, de modo que o mamilo rosado e firme ficou facilmente visvel sob o tecido fino do vestido.
      Aquela tentao, aquele estmulo ao desejo de Vidal, ter Fliss deitada em seus braos, fez com que ele inclinasse a cabea sobre seu corpo, para poder sentir 
o mamilo de colorao semelhante  das ptalas das rosas que estavam dando a ele a privacidade. Incapaz de se conter, Fliss soltou um leve suspiro de prazer. A sensao 
da lngua dele acariciando sua pele to sensvel fez com que o quisesse cada vez mais, e levou embora o que restava de seu autocontrole. Ela arqueou as costas, aproximando 
o seio da boca de Vidal.
      A sensualidade desenfreada da explorao do corpo de Fliss, combinada com a sensao ertica do calor dela, o mamilo rijo contra sua lngua, fez Vidal esquecer 
quem ela era e onde eles estavam. Finalmente a tinha nos braos, a mulher cuja lembrana tanto o atormentara. Segurou-a firmemente e sugou o mamilo com mais fora. 
Longe de satisfazer o anseio vulcnico de suas necessidades masculinas, o movimento s aumentou a torrente de desejo fluindo atravs dele.
      Deitada sobre o brao de Vidal, agarrando-se aos ombros dele em busca de apoio, Fliss s conseguia estremecer violentamente com um prazer to desconhecido. 
Um prazer to intenso que ela quase no conseguia suportar. Ela queria arrancar o vestido do corpo e manter a boca de Vidal presa ao seu mamilo, satisfazendo sua 
nsia crescente. Ao mesmo tempo, Fliss queria esconder-se dele e dessas sensaes o mais rpido possvel.
      Uma sensao repentina, como um relmpago, zigzagueou dentro dela, comeando no seio e terminando no cerne de sua sexualidade, fazendo-a querer tocar aquela 
parte de si mesma para, ao mesmo tempo, esconder e acalmar seus desejos frenticos.
      Vidal puxou-a para perto, de modo que ela pde sentir sua excitao, criando outro relmpago dentro dela em resposta  mensagem sensual daquele corpo masculino.
      Acima, ela pde ver o cu azul. Sentiu a essncia quente de seus corpos se misturando com o inebriante perfume das rosas. Se ele a deitasse agora e cobrisse 
a pele dela com a sua, se a possusse... Fliss sentiu uma exploso dentro do peito. No fora isso o que ela quisera durante todos aqueles anos quando vira Vidal 
e ansiara por ele?
      Ela ficou chocada, com repulsa pelo prprio comportamento.
      - Pare, pare! Eu no quero isso.
      O pnico frentico em sua voz acabou com a excitao de Vidal, e deu lugar a um forte sentimento de repulsa. O que havia de errado com ele? Sabia quem ela 
era. Havia visto e ouvido por ele mesmo.
      Assim que ele a soltou, Vidal virou-se de costas, ciente da excitao de seu corpo, uma excitao indesejada e injustificada. Como havia deixado isso acontecer?
      Tremendo, Fliss arrumou o vestido. As bochechas e os seios estavam rosados, e no s pelo constrangimento. Seus mamilos doam, no apenas aquele que Vidal 
estava acariciando, mas o outro tambm. Mesmo algo to simples e to necessrio como respirar exacerbava sua sensibilidade. O sexo dela parecia quente e inchado, 
pressionando contra o tecido da calcinha, a umidade vergonhosamente evidente para ela. Fliss no conseguia compreender o que acontecera com ela, como mudara de raiva 
para desejo intenso em apenas alguns segundos, s porque Vidal a tocara. Como podia se sentir assim?
      Fliss observou Vidal retornar a casa. Ela no o seguiria como um cachorrinho, como a menina que tinha sido aos  dezesseis anos. Alm disso, a verdade  que 
ela no estava disposta a encarar ningum no momento. Agora, ela preferia a privacidade da prgula coberta de rosas e sua bancada de ferro, onde poderia sentar-se 
e recompor-se.
      Demorou uns dez minutos at que ela se sentisse capaz de caminhar de volta para a casa. Dez minutos tambm era tempo suficiente para garantir que Vidal no 
estaria  vista, mesmo que no tivesse sido tempo suficiente para seu corao retomar o ritmo normal. Fliss temia que talvez isso nunca acontecesse, e ela fosse 
amaldioada para sempre, carregando as cicatrizes do mal que ele lhe causara.
      Absorta nos prprios pensamentos, Fliss esqueceu-se completamente da me de Vidal at chegar ao jardim central e ver que a duquesa ainda estava sentada ali. 
Tarde demais para se retirar. A duquesa a viu e estava sorrindo para ela e, alm disso...
      Respirando fundo, Fliss corajosamente se aproximou dela, desculpando-se com remorso.
      - Eu sinto muito se meus comentrios a chatearam ou aborreceram. No foi minha inteno.
      Uma elegante mo de dedos longos, certamente a verso feminina de Vidal, segurou o brao Fliss delicadamente.
      - Acho que sou eu quem lhe deve um pedido de desculpas, Felicity. Meu filho tende a me proteger mais que o necessrio. Em parte por causa do homem que ele 
, e por estar no comando de uma famlia to tradicional. Ele precisou assumir o papel de chefe da famlia ainda muito jovem. - A duquesa exibiu uma expresso triste. 
- Meu marido morreu quando Vidal tinha sete anos.
      Fliss ficou chocada, criando em sua mente a imagem de um menino de sete anos que havia perdido o pai. Compaixo por Vidal? Ela no podia ser fraca!
      - Ento, quando Vidal tinha  dezesseis anos, a av morreu. Com isso, ele teve que assumir as responsabilidades de sua herana. - Ela fez uma pausa - Sinto 
muito. Acho que estou sendo chata.
      Fliss sacudiu a cabea negativamente. Ela podia at tentar convencer a si mesma de que no estava interessada em ouvir histrias sobre a juventude de Vidal, 
mas a verdade era que parte dela queria implorar  duquesa para que contasse mais. Foi perturbadoramente fcil para ela imaginar Vidal com  dezesseis anos. Alto, 
cabelos escuros, ainda um menino, mas j exibindo sinais fsicos do homem que se tornaria.
      Uma sensao eletrizante tocou-lhe a pele; o toque de Vidal, assim como a boca dele em sua pele, quebrou barreiras que ela havia erguido para abrigar valores 
e julgamentos.
      De alguma forma, ela conseguiu voltar sua ateno para a duquesa, que continuou a falar delicadamente:
      - Vidal era muito ligado a Annabel. Gostava muito dela.
      Fliss conseguiu concordar com a cabea, embora no conseguisse abrir a boca para falar.
      Sua me no havia falado muito sobre a duquesa. S contara que ela no havia sido a primeira que a av de Vidal escolhera para se casar com seu filho, e que 
a duquesa insistira para que Vidal tivesse uma educao mais diversificada do que a av paterna queria.
      Inconscientemente, confirmando o que a me de Fliss havia dito, a duquesa continuou:
      - Minha sogra no aprovou quando convenci meu falecido marido a contratar uma jovem para ensinar ingls a Vidal. Ela considerou inadequado, preferia um professor 
homem, mas meu menino j tinha bastante influncia do sexo masculino em sua vida.
      Uma expresso calorosa e apaixonada tomou conta do rosto da duquesa. Fliss teve certeza de que ela eslava imaginando Vidal quando criana. Fliss tambm conseguia 
imaginar aquela criana. Sua me tirara vrias fotografias enquanto estivera na Espanha, e Fliss crescera sabendo quem era o menino de cabelos escuros em algumas 
delas. Na verdade, trouxera uma dessas fotos tirada em Alhambra; estava em sua bolsa. Na fotografia estavam sua me, seu pai e um Vidal muito mais jovem, sorrindo 
para a cmera atrs da cortina de gua de um chafariz. Ali, a me de Fliss estava com um brao em volta dos ombros de Vidal, um brao protetor e cuidadoso. Embora 
fosse muito jovem na poca, tinha total noo de suas responsabilidades.
      - A av de Vidal era rgida e no aprovava o que ela considerou indulgncia minha com relao a Vidal. - A duquesa fez uma pausa. - Sua me sofreu muito nas 
mos de nossa famlia. Pobre Felipe, era to quieto e gentil detestava aborrecimentos de qualquer tipo, e era praticamente escravo da av adotiva.  compreensvel. 
Ela o criou, aps a morte da me dele, de acordo com suas regras rigorosas e com o que pensou que a me biolgica queria para ele. Felipe no herdou dinheiro dos 
pais, portanto, dependia financeiramente de minha sogra. Ele discutiu com ela sobre fazer o que era certo e se casar com Annabel, mas ela se recusou terminantemente. 
Nem concordou em adiantar algum dinheiro para que ele ajudasse vocs duas. Ela conseguia ser muito rancorosa. Aos seus olhos, Felipe e sua me quebraram as regras 
e mereciam ser punidos. Felipe no tinha dinheiro, nem casa para oferecer a sua me, nem meios de ganhar o prprio sustento. Seu trabalho na famlia era administrar 
os pomares.
      - E a av queria que ele se casasse com outra pessoa - Fliss completou.
      - Queria - a duquesa concordou. - Minha sogra podia ser muito cruel. Confesso que nunca fomos afetuosas uma com a outra. Mas o pai de Vidal, como o prprio 
Vidal, foi um homem muito forte e moral. Ele estava na Amrica do Sul a negcios quando minha sogra descobriu sobre o relacionamento. Acredito que, se ele estivesse 
aqui, teria feito o possvel para que tudo tivesse sido diferente. Contudo, ele nunca retornou. O avio caiu e todos a bordo morreram.
      Fliss respirou fundo, incapaz de no sentir compaixo.
      - Isso  terrvel.
      - Sim, foi terrvel para todos ns, principalmente para Vidal. Ele precisou crescer muito rpido depois disso.
      E tornou-se um homem to duro e implacvel quanto  av, que certamente influenciou a educao dele, Fliss pensou amargamente.
      Era difcil para uma criana conviver com a morte de um dos pais, mas mais difcil era o pai estar vivo e a criana no poder entrar em contato com ele. Fliss 
se lembrou da me respondendo suas perguntas ingnuas sobre o porqu de seus pais no estarem juntos.
      - A famlia de seu pai nunca permitiu que nos casssemos, Fliss. Algum como eu nunca ser boa o suficiente para ele. Homens como seu pai, de importantes famlias 
aristocrticas, precisam se casar com mulheres iguais a eles.
      - Como prncipes que casam com princesas? - Fliss perguntou.
      - Exatamente - a me concordou.
      - Eu no sabia que as coisas tinham ido to longe quanto Annabel foi mandada embora - a duquesa dizia, com olhar um pouco severo.
      - Eu fui concebida por acidente na noite em que ela e Felipe se separaram. Nenhum deles teve a inteno... Minha me disse que meu pai sempre se comportou 
como um perfeito cavalheiro, mas a notcia de que ela seria mandada embora deixou tudo fora de controle. - Sentindo que estava sendo criticada, imediatamente Fliss 
defendeu sua me. - No incio, minha me nem percebeu que estava grvida. Quando teve certeza, meus avs insistiram para que ela escrevesse para meu pai contando.
      Fliss no permitiria que a duquesa pensasse mal de sua me, que, afinal, fora uma menina inocente e ingnua de dezoito anos, desesperadamente apaixonada e 
com o corao partido por estar longe do homem que amava.
      - Foi quando minha me recebeu uma carta em resposta dizendo que ela no tinha como provar que estava esperando um filho de Felipe e que uma ao legal seria 
tomada contra ela se tentasse contat-lo novamente.
      A duquesa suspirou e concordou com a cabea.
      - Minha sogra era teimosa. Para ela, mesmo que sua me tivesse sido aceita como esposa de Felipe, o fato de ela ter permitido tais intimidades... -A duquesa 
deu de ombros. - Em famlias como a nossa, h algo das tradies antigas dos tempos dos mouros, no que diz respeito s mulheres da famlia e  santidade de sua pureza. 
Nos dias da av de Vidal, moas de boa famlia nunca saam da casa da famlia sem estarem acompanhadas por uma dama de companhia para proteger sua reputao. Isso 
mudou agora, mas acredito que o que est no sangue permanece. Existe certa conveno, certa meticulosidade, certa exigncia na famlia de que os membros do sexo 
feminino obedeam a um cdigo moral, e que...
      - Noivas sejam virgens? - Fliss sugeriu. A duquesa olhou para ela.
      - Eu diria que os homens da famlia so muito protetores da virtude de suas mulheres. Sempre acreditei que, se o pai de Vidal tivesse retornado para ns aqui 
em Granada, ele teria insistido que a inocncia de sua me fosse honrada e que sua posio dentro da famlia fosse reconhecida. Afinal, voc  membro desta famlia, 
Felicity.
      Ao ver a jovem empregada aproximando-se para perguntar se queriam caf, Fliss sacudiu a cabea e saiu. Tinha sido um dia longo. E o dia seguinte seria mais 
ainda. Principalmente agora que ela havia insistido em ver a casa onde seu pai havia vivido e que havia deixado para ela como herana. Um dia em que passaria na 
companhia do homem que seu instinto de autopreservao havia lhe dito para ficar longe...
      
      
      
      
CAPTULO CINCO
      
      
      
      
      - Felicity, amanha Vidal planeja sair logo aps o caf da manh, ento no vou prend-la por mais tempo.
      A duquesa e Fliss estavam bebendo caf depois do jantar, sentadas na varanda, do lado de fora da sala de jantar.
      Fliss ficou bastante aliviada ao saber que Vidal no se juntaria a elas para a refeio, pois havia sado com alguns amigos.
      Ela se sentia cansada pela tenso do dia. Por isso, agradeceu  duquesa pela considerao e levantou-se, concordando que estava pronta para dormir.
      Mesmo sabendo que apenas elas duas estariam presentes para o jantar, a duquesa se vestiu formalmente, e Fliss colocou seu vestido preto, feliz por t-lo trazido. 
A pea era uma de suas favoritas e lhe caa muito bem. Ela o comprara em uma promoo e mesmo assim havia pechinchado. Via o vestido como um investimento que pagava 
a cada ano.
      Fliss havia lavado e secado o cabelo antes do jantar, percebendo que o sol j havia clareado algumas mechas.
      No era nem meia-noite, mas ela teve que abafar um bocejo enquanto subia as escadas e passava pelo corredor com vrias portas imponentes que davam para vrios 
cmodos.
      L em cima, em seu quarto, Fliss percebeu que a roupa de cama havia sido trocada. Seria um luxo dormir em lenis to belos de algodo egpcio, com cheiro 
de lavanda.
      Sua me sempre apreciara roupa de cama de boa qualidade. Ser que adquirira essa caracterstica enquanto estivera na Espanha?
      Fliss suspirou e tirou o vestido.
      No dia seguinte veria a casa de seu pai, a casa que ele deixara para ela. Sob a privacidade segura do chuveiro, ela permitiu que os olhos se enchessem de lgrimas. 
Teria trocado uma centena de casas por algumas semanas preciosas com o pai para poder conhec-lo, ela pensou, saindo do chuveiro e pegando uma toalha, para se secar.
      Com a toalha fresca enrolada no corpo, ela entrou no quarto para pegar o pijama na gaveta da cmoda, hesitando ao olhar para a cama e imaginar a suavidade 
dos lenis luxuosos contra sua pele nua. Um prazer to sensual, um comodismo to secreto...
      Sorrindo sozinha, Fliss removeu a toalha e deslizou entre os lenis, respirando profundamente. O toque em sua pele foi mais divino do que ela havia imaginado, 
aliviando sutilmente a tenso do dia. Dormiria bem essa noite, e esse sono iria equip-la para enfrentar o dia seguinte e Vidal.
      Cansada, Fliss desligou as luzes do quarto.
      No silencioso jardim abaixo das janelas fechadas do quarto de Fliss, apenas com as estrelas de testemunha, Vidal fez uma careta para as janelas. Agora, em 
vez de estar ali, irritando-se com o comportamento Fliss e com sua insistncia em ver a casa do pai, ele poderia estar desfrutando dos encantos de uma italiana divorciada, 
que fora convidada para lhe fazer companhia na festa de seus amigos. Ela certamente desfrutara da companhia dele, sugerindo que terminassem a noite sozinhos em seu 
hotel. Ela era muito atraente e tinha um bom papo. Em outro momento, - Vidal no hesitaria em aceitar a oferta, mas nessa noite...
      Mas nessa noite o qu? Por que ele estava ali, a mente cheia de irritaes causadas por Fliss, em vez de estar na cama com Mariella? A realidade era que, embora 
apreciasse a companhia dos amigos, embora a comida estivesse excelente, seu pensamento estava em Fliss. Por causa dos problemas que ela havia causado. No havia 
outro motivo. Havia?
      Seu corpo j estava lembrando-se daquele desejo inesperado que ela havia despertado nele. Ele ainda podia sentir o cheiro do corpo de Fliss, ainda se lembrava 
do gosto dela. Do gosto e da sensao.
      Decididamente, ele suprimiu anseios indesejados. O que sentiu foi um lapso momentneo, garantiu a si mesmo, causado pela lembrana da menina que um dia ele 
havia desejado. Nada mais que isso. Uma aberrao que devia ser ignorada, nada que merecesse muita importncia. No significava nada. Era problema dele, uma desgraa 
que jamais poderia revelar a algum, um amor inigualvel e nico, com uma chama que jamais poderia se apagar. Neste caso, a chama precisava ser apagada. Vidal conhecia 
a si mesmo. Sabia que a mulher amada devia ser uma mulher em quem pudesse confiar, fiel ao seu amor em todos os sentidos. Felicity jamais seria essa mulher. Sua 
histria j provara isso. A mulher que ele amara? O fato de ele, quando jovem, ter sido tolo o suficiente para olhar para uma menina de  dezesseis anos e imaginar 
secretamente essa menina se tornando mulher no queria dizer nada, apenas que ele havia sido um tolo. A inocncia que pensara ter visto em Felicity, a inocncia 
que lutara contra seus desejos para proteger, era to falsa quanto  mulher que criara em sua imaginao. Ele precisava lembrar-se disso, no das sensaes que ela 
despertava nele. No fazia sentido imaginar como tudo poderia ter sido diferente. O presente e o futuro j estavam definidos.
      Vidal se afastou da janela e caminhou de volta para a casa.
      - Quanto tempo leva para chegar ao castelo?
      Fliss fez a pergunta calmamente enquanto olhava para o pra-brisa de uma imponente limusine de luxo. Ela estava sentada no banco do passageiro, e Vidal dirigia.
      - Cerca de quarenta minutos, talvez cinqenta, dependendo do trnsito.
      A resposta de Vidal foi igualmente concisa, sua ateno voltada completamente para a estrada. Embora, por dentro, estivesse muito mais ciente da presena de 
Fliss ao seu lado do que gostaria de admitir.
      Ela usara um vestido de vero colorido. Quando ele caminhou at o carro, na frente dele, Vidal observou como a luz do sol revelava as pernas delgadas e a curva 
dos seios atravs do tecido. Agora, apesar do cheiro de couro do automvel, ele ainda podia sentir o cheiro fresco da pele de Fliss, fazendo com que sentisse uma 
necessidade automtica de se aproximar dela.
      Dentro de sua cabea, formou-se a imagem do corpo dela pressionado perto contra o seu de forma sensual. Vidal lutou para suprimir a reao sexual do prprio 
corpo quela imagem, abaixando um brao para esconder de Fliss a evidente excitao fsica. Ficou grato pelo fato de ela estar olhando para frente, e no para ele. 
A realidade de v-la agora, como a mulher que era, no como a menina que se recusava a deixar seus pensamentos, deveria ter diminudo seu desejo. No o aumentado.
      O silncio entre eles era perigoso, Vidal reconheceu. Permitia que seu pensamento aflorasse, e ele no queria isso. Melhor silenci-lo com uma conversa mundana.
      Mantendo o tom de voz neutro e distante, ele disse a Fliss:
      - Alm de mostrar a voc a casa de seu pai, preciso tratar de alguns negcios antes de retornar a Granada.
      Fliss concordou com a cabea e, incapaz de se conter, perguntou rapidamente:
      - Minha me alguma vez visitou a casa de meu pai?
      - Sozinha? Para ter privacidade com ele?
      Fliss percebeu um tom de desaprovao na voz de Vidal. A mesma desaprovao sentida por sua av.
      - Eles estavam apaixonados - Fliss lembrou, defendendo-se imediatamente de qualquer crtica a seus pais. -  natural que meu pai...
      - Tenha lavado sua me para a casa dele com a inteno de lev-la para cama sem pensar em sua reputao? - Vidal sacudiu a cabea negativamente. - Felipe jamais 
faria isso. Contudo, no me surpreende que voc pense assim, dado seu comportamento e histrico sexual.
      Fliss respirou fundo.
      - Voc no sabe nada sobre a realidade desses dois fatos.
      Vidal olhou para ela, a incredulidade tomando conta de sua expresso.
      - Voc realmente espera que eu escute tudo isso? Eu sei o que eu vi.
      - Eu tinha  dezesseis anos e...
      - E voc no pode mudar o que .
      - No, no muda - Fliss concordou com fria. - Voc  a prova viva disso.
      - O que voc quer dizer? - Vidal a desafiou.
      - Na poca, eu sabia o que voc pensava de mim e porque me julgou daquela maneira, e sei que ainda sente o mesmo - Fliss rebateu.
      Vidal segurou o volante com fora. Ela sabia como ele se sentia a respeito dela? Apesar de tudo o que ele havia feito para tentar esconder seus sentimentos? 
 claro que sim, Vidal concluiu. Ele j avaliara a maturidade dela e sua capacidade de perceber seu desejo, acreditando erroneamente que ela era inocente.
      - Bem, neste caso - ele prosseguiu -, no importa o que voc sabe. Garanto que esses sentimentos no iro afetar meus deveres e responsabilidades de realizar 
os ltimos desejos de meu tio em relao a sua herana.
      - timo. - Foi  nica resposta que Fliss conseguiu dar.
      Ento era verdade. Ela estava certa. Ele no gostava dela, nem nunca havia gostado. Ela j sabia disso, mas por que a confirmao fez com que se sentisse to... 
To magoada e abandonada?
      Ela j sabia como ele se sentia em relao a ela quando chegara. Ou ser que estava esperando secretamente que um milagre acontecesse? Ser que ela esperava 
por algum tipo de mgica de conto de fadas para apagar a angstia que havia dentro dela? Deixando-a livre para... o qu? Encontrar um homem com quem pudesse ser 
uma mulher completa, livre para desfrutar sua sexualidade sem sentir vergonha. Por que precisava de Vidal acreditando em sua inocncia? Ela sabia da verdade e isso 
deveria ser suficiente. Deveria ser. Mas no era, era? Havia algo dentro dela que s poderia ser curado com... o qu? Com o toque de Vidal naquele lugar latejante, 
aceitando quem ela realmente era?
      Ela havia ido at l em busca do pai, no da aceitao de Vidal.
      J no era mais aquela menina idealista que olhava para Vidal e ficava nas nuvens. Sabia que ele no era a figura herica que havia criado em sua mente a partir 
da adorao que sentia. Ele mesmo comprovara isso ao julg-la precipitadamente. No havia motivo para estar to afetada com a presena dele agora; apenas estar com 
ele fazia com que sentisse os mesmo anseios da adolescncia. Era exatamente isso que estava acontecendo.
      Por mais que tentasse, no conseguia resistir a olhar para ele.
      A gola aberta da camisa que estava vestindo revelava a linha da clavcula e o pescoo dourado. Se olhasse bem, conseguiria ver os pelos de seu peito. Fliss 
se lembrava do padro que vira quando encontrara com ele no banheiro.
      Pare!, Fliss exigiu desesperadamente. A ansiedade fazia brotar gotas de suor em sua testa e sua pulsao estava acelerada, como se estivesse com medo. Bem, 
ela admitia que sentia medo. Medo da prpria imaginao. Do poder da sensualidade arraigada dentro dela. Parecia ter surgido do nada; ela nem sabia que a possua.
      Talvez o fato de estar ali, no pas de seu pai, estivesse libertando certos aspectos ocultos de sua personalidade e dando vida a paixes desconhecidas. Era 
muito mais fcil agarrar-se a esse pensamento do que ao prprio Vidal, que era responsvel por esse desabrochar indesejado e perigoso de um lado to sensual de sua 
natureza. Como quando Fliss tinha  dezesseis anos.
      Vidal verificou o espelho retrovisor. No porque julgou necessrio, mas para evitar olhar para Fliss. Contudo, no era preciso olhar diretamente para ela para 
v-la. Existia uma imagem perfeita dentro de sua cabea, a imagem de Fliss com o olhar repleto de luxria e os lbios prontos para serem beijados. Tais pensamentos 
no eram aceitveis. E tais desejos?
      Severamente, Vidal pressionou o acelerador do carro. Estavam distantes da cidade e o carro poderoso seguiu acelerado.
      Na pr-adolescncia, Fliss sentia curiosidade sobre a terra em que seu pai nascera, mas ao mesmo tempo sabia que magoaria a me se tocasse no assunto. Por 
isso, ela passara muito tempo em livrarias e bibliotecas estudando mapas, descries e fotografias de Granada e do Vale Lecrin. Mais tarde, na universidade, aprendera 
mais atravs da internet, mas nada se comparava  realidade de onde estava agora.
       claro, ela sabia que o Vale Lecrin era formado pelo natural Parque de Sierra Nevada e que, depois da expulso dos mouros, a rea permanecera praticamente 
intocada por sculos. Portanto, a regio campestre abrigava muitos monumentos mouros, moinhos e antigos castelos, alm das vilas Pablo, de casas caiadas que um dia 
haviam sido lar da populao de mouros.
      Pomares com limoeiros e laranjeiras, repletos de frutas, cercavam essas pequenas vilas. Com suas ruas estreitas e quadras pequenas. O aroma ctrico penetrou 
no carro, apesar do ar-condicionado. No que Fliss se importasse. Na verdade, ela amava o aroma das frutas aquecidas pelo sol e sabia que era uma coisa que levaria 
consigo quando voltasse para casa.
      - Deve ser lindo aqui na primavera quando os pomares esto com flores. -As palavras simplesmente saram, ignorando ter prometido a si mesma permanecer indiferente 
diante de Vidal.
      -  a poca do ano que minha me mais gosta. Ela sempre passa a primavera em nossa propriedade rural. s flores da amendoeira so suas preferidas - ele respondeu 
seriamente, mostrando a Fliss que no queria muito contato, apesar de ter se voltado para ela para responder.
      A dor tomou conta do corao dela. Fliss conteve um suspiro, tentando negar o que estava sentindo. Era incrvel o que ele conseguia provocar s de olhar para 
ela.
      E ela olhara para ele. Do mesmo modo que olhara quando o encontrara no banheiro, fisicamente incapaz de desviar o olhar. Por que isso acontecia com ela? Por 
que esse homem a fazia ter sensaes que nunca tivera antes? Ser que alguma parte dela queria ser humilhada?
      O rubor queimando sua pele cresceu ainda mais. Ela no podia pensar em Vidal. Devia pensar em seus pais, no amor que compartilharam. Ela era fruto desse amor 
e, de acordo com sua me, isso fizera dela uma criana muito especial. Uma filha do amor. Tendo isso em mente, no era de se admirar que ela ficara to horrorizada 
com o comportamento de Rory, que nem conseguira encontrar as palavras para se defender. Aos  dezesseis anos, acreditava que a intimidade sexual devia ser um ato 
de amor mtuo. No tinha o desejo de ter vrias experincias sexuais, como tinham outros adolescentes de sua idade, em uma atitude que ela julgava vulgar. Fliss 
sonhava com um amante apaixonado e sensvel, com quem compartilharia os mistrios e deleites da intimidade sexual.
      E, ento, Vidal decidira visitar sua me. O menino de quem tanto ouvira falar se transformara em um heri que se encaixava perfeitamente em seu molde privado 
do homem perfeito. Ele roubara seu corao antes mesmo de ela perceber o que estava acontecendo. Vidal era to bonito... Ela ficava sem ar s de olhar para ele. 
Vidal, que carregava com ele uma aura sexual to poderosa que mesmo Fliss, aos  dezesseis anos, havia percebido. Vidal, que conhecera seu pai. No era de se admirar 
que ele tivesse as chaves capazes de abrir as portas de suas defesas emocionais. No que ele precisasse dessas chaves. Fliss deixou as portas abertas para ele.
      Chocada com a prpria vulnerabilidade, Fliss tentou concentrar-se na paisagem. Eles saram da estrada principal e estavam viajando ao longo de uma estrada 
estreita. Mais  frente, ela avistou um vale repleto de pomares e, nos declives das colinas, havia fileiras de videiras.
      - A propriedade rural se inicia aqui - disse Vidal, quando comearam a descer o vale, ainda naquele tom formal que havia usado antes.
      Bem, ela no se importava. Afinal, no estava ali por causa dele. Fliss estava ali por causa do pai. Contudo, embora tentasse buscar conforto nesse pensamento, 
era um conforto ilusrio e a dor no seu corao se recusava a ir embora.
      - Ainda no d para ver o castelo, fica na extremidade do vale. Foi construdo l de modo a adotar uma posio estratgica.
      Fliss visualizou ligeiramente o brilho prateado do rio, abrindo caminho pelo vale. O vale era um pequeno paraso, ela admitiu, sendo surpreendida por um sentimento 
inesperado de inveja ao imaginar como deve ter sido maravilhoso crescer ali, cercada por tanta natureza e beleza. Ao longe, ela pde observar o topo das Sierras, 
e sabia que depois do Vale Lecrin estava uma costa subtropical incrivelmente bela.
      Porm, a costa e tudo que estava alm do lugar foram esquecidos quando eles fizeram uma curva e, diante deles, surgiu o castelo. Fliss no havia imaginado 
que fosse to grande, to imponente, e ela se traiu emitindo um suspiro de admirao. A arquitetura era uma mistura de estilo mouro tradicional e algo da Renascena.
      Isso no era uma casa, Fliss pensou com apreenso. Era uma fortaleza projetada para revelar o poder e a grandeza do homem que a possua e alertar os outros 
para no desafiarem seu poder.
      Foi preciso passar de carro por jardins e um lago ornamental antes de chegar  entrada do castelo, onde Vidal estacionou o carro.
      Um criado aguardava por eles dentro do hall de entrada de mrmore, acompanhado por uma empregada, muito mais sorridente que Rosa, que acompanhou Fliss at 
seu quarto quando Vidal anunciou que ela teria tempo para descansar enquanto ele conversava com o gerente da propriedade.
      - Como est quase na hora do almoo, sugiro adiarmos a visita  casa de Felipe para depois da refeio.
      Vidal podia at ter usado a palavra "sugerir", mas o que ele realmente quisera dizer, e queria que Fliss soubesse, era que estava dando uma ordem, ela concluiu, 
forada a concordar e aceitar, mesmo querendo insistir para ver a casa do pai imediatamente.
      Alguns minutos depois, seguindo a empregada por um longo e amplo corredor no segundo andar, Fliss refletiu que a vastido do castelo e sua arquitetura a lembravam 
sua visita a Blenheim, um palcio enorme dado ao duque de Marlborough pela rainha Arme. Ali, no castelo, o teto do corredor era decorado com reboco ornado, e as 
paredes vermelhas continham vrios retratos com molduras gigantescas.
      Elas estavam quase no final do corredor quando a empregada fez uma pausa e abriu as portas duplas diante dela, indicando que Fliss deveria entrar naquele cmodo.
      Se ela pensava que seu quarto em Granada era grande e elegante, obviamente no tinha noo do que essas palavras significam. Fliss colocou no cho a mala que 
havia levado com roupas para passar uma noite, sem palavras por estar no quarto mais opulento que j tinha visto.
      Grinaldas e anjos dourados adornavam a cabeceira da cama, enquanto, no teto, ninfas e pastores decoravam uma pintura buclica. Reboco ornado com guirlandas 
decorava as paredes cor creme, combinando com as cortinas de seda penduradas nas janelas e sobre a cabeceira da cama.
      A moblia do quarto era pintada na cor creme, feminina e delicada, bem como altamente decorada no estilo rococ. Na cama, havia uma colcha dourada feita do 
mesmo tecido das cortinas, com querubins bordados. Em uma parede, entre duas portas de vidro que davam para a pequena varanda, havia uma mesa com uma cadeira, e 
no canto uma mesinha com algumas revistas. Fliss, que no conhecia muito sobre antigidades, suspeitou que o tapete dourado e creme provavelmente pertencera  princesa 
Savonnerie e fora feito especialmente para esse quarto.
      - Seu banheiro e closet ficam por aqui - a empregada informou a Fliss, apontando para as portas, uma de cada lado da cama. - Vou pedir para que algum a chame 
para o almoo em 10 minutos.
      Agradecendo, Fliss aguardou at a porta se fechar para investigar o banheiro e o closet.
      O banheiro era bastante tradicional, com piso e parede de mrmore e uma enorme banheira. Toalhas macias estavam penduradas em um cabide cromado enquanto um 
roupo, igualmente macio, estava pendurado atrs da porta.
      O closet tinha portas espelhadas e era grande o suficiente para abrigar as roupas de vrias famlias; havia at mesmo um sof. Ser que estava l para que 
o homem pudesse ficar ali e espiar sua companheira trocando de roupa? Dentro de sua cabea, Fliss imaginou Vidal deitado sobre o estofado dourado do sof, estendendo 
a mo pra toc-la no ombro, olhando fixamente para sua boca, enquanto ela...
      No, ela no podia permitir tais pensamentos.
      Retornando rapidamente ao quarto, Fliss foi at a varanda para respirar ar puro. Ela ficou imvel quando percebeu que a varanda dava para uma piscina que parecia 
pertencer a um hotel cinco estrelas. O azul intenso do cu estava refletido na gua da piscina, e adiante ela pde ver os pomares estendendo-se at o p da montanha.
      O vale era um pequeno paraso na terra. Um paraso com seus prprios perigos e seu prprio Lcifer, foi o que ela percebeu, representados por Vidal. Estaria 
ela tentada por Vidal como Eva fora tentada pela serpente, correndo o risco de arriscar coisas importantes em troca dos carinhos de um homem sensual que representava 
tudo o que ela mais desprezava?
      
      


CAPTULO SEIS
      
      
      
      
      Algum estava batendo na porta do quarto. Pegando o chapu Panam e a bolsa, Fliss foi atender a porta, tentando esquecer os pensamentos conturbados e sorrir 
para a empregada, que a aguardava do outro lado.
      A empregada a levou at uma sala com bufet. Havia trs pratos na imaculada mesa de mogno, e o motivo disso ficou evidente quando Vidal apareceu acompanhado 
por um belo jovem que sorriu pra Fliss e demonstrou apreciao assim que a viu.
      Vidal os apresentou.
      - Felicity, este  Ramn Carrera. Ramn  quem gerencia a propriedade. - O sorriso de Ramn foi substitudo por uma saudao respeitosa quando Vidal acrescentou: 
- Felicity  filha de Felipe.
      Dirigindo-se  mesa, Fliss estava surpresa por ter sido apresentada como filha de Felipe. Isso significava que Vidal a considerava membro da famlia, como 
se no houvesse nenhum segredo no passado ou resistncia para aceit-la. Por que ele fizera isso? Ser que queria justificar sua presena e evitar que qualquer pessoa 
conclusse precipitadamente que estavam envolvidos pessoalmente?  claro, ele era esse tipo de homem, que no queria que tirem concluses precipitadas a seu respeito. 
Afinal, deixara bem claro que no gostava dela. Enquanto Fliss comia, os dois homens conversavam sobre a propriedade. Fliss ponderou sobre estar incomodada com o. 
fato de Vidal justificar sua presena ali por ser filha de Felipe, e no porque tivessem algum envolvimento pessoal.
      - Voc ainda no experimentou o vinho - disse Ramn. - E um novo Merlot que comeamos a produzir aqui.
      Respeitosamente, Fliss ergueu uma taa com vinho tinto e sentiu seu aroma antes de beber um gole. Estava certa em ser cautelosa, concluiu enquanto sentia o 
calor do vinho espalhando-se por seu corpo.
      - E excelente - ela disse a Ramn.
      -  Vidal quem merece o elogio, no eu. - Ramn sorriu. - Foi idia dele importar novas videiras do Chile, onde ele tem interesses financeiros, para ver se 
 possvel reproduzir  excelente vinho que eles produzem l.
      - O que produzimos aqui  nico na rea - Vidal participou da conversa. - Parte do aroma dos nossos pomares foi incorporado ao vinho.
      - Sim, percebi isso - Fliss concordou, bebericando mais vinho. Era muito bom, e ela teve vontade de mergulhar o nariz para absorver mais a essncia.
      - Vidal disse que queria produzir um Merlot que lembrasse o pomar em uma manh de primavera - completou Ramn. - O vinho dos amantes est repleto de promessas 
e da alegria de viver. Foi muito bem recebido na indstria. Eu acho, Vidal, que devemos nome-lo em homenagem  bela filha do senhor Felipe - Ramn disse a Vidal, 
olhando para Fliss com admirao.
      Vidal sentiu como se tivesse levado um soco no estmago enquanto observava Fliss sorrir para Ramn. Ela no mencionara nenhum homem em sua vida e, mesmo se 
houvesse, a julgar pelo que sabia, Fliss no se contentaria com um s, ainda mais estando longe.
      Ele levantou abruptamente, e disse:
      - Acho que devemos tomar alguma atitude. Mande-me um relatrio sobre o problema com o sistema de irrigao hoje mesmo, Ramn. Se vamos contratar um engenheiro, 
prefiro que seja amanh, enquanto ainda estou aqui.
      - Vou descobrir o que aconteceu - confirmou Ramn, levantando e indo em direo a Fliss, para segurar a cadeira dela enquanto levantava.
      Ramn pediu licena e deixou Fliss e Vidal sozinhos com o sol do fim da tarde.
      Fliss imaginou que a casa de seu pai ficasse ao lado do castelo. Por isso ficou surpresa quando Vidal a segurou pelo cotovelo e apontou para o carro. Primeiro 
ela sentiu o brao queimando com o toque dele e, em seguida, o calor se espalhou para o corpo, causando pnico e vontade de se afastar. Seria insuportvel se ele 
descobrisse que tinha esse efeito sobre ela. Certamente adoraria humilh-la. Mas o medo da humilhao no foi suficiente para impedir que seus mamilos ficassem rijos, 
pressionando o tecido do suti. Era como se quisessem envergonh-la, expondo sua excitao e disponibilidade diante de Vidal.
      Furiosa com ela mesma, refugiou-se da vulnerabilidade sensual indesejada e da incapacidade de control-la.
      - Acredito que, como duque, afete sua dignidade caminhar at a casa?
      Ele exibiu um olhar severo e disse friamente:
      - J que fica a alguns quilmetros de distncia, pensei que fosse mais fcil irmos de carro. Contudo, se voc prefere caminhar... - Ele olhou para as delicadas 
sandlias de Fliss, fazendo com que ela admitisse que ele havia vencido a disputa.
      Eles fizeram uma pequena viagem pela estrada, em um silncio que refletia a hostilidade mtua, antes de Vidal anunciar em tom resoluto: - Devo advertir voc 
sobre flertar com Ramn.
      - Eu no estava flertando com ele - Fliss respondeu com fria.
      - Ele deixou bem claro que acha voc atraente e voc permitiu isso. Mas  claro que ns dois sabemos que voc sempre est disposta a acomodar os desejos de 
um homem.
      - Eu sabia que voc iria jogar isso na minha cara - Fliss tentou se defender - Voc mal podia esperar, no ? Bem, para sua informao...
      - Para sua informao - Vidal interrompeu friamente - no vou favorecer seu apetite sexual promscuo por Ramn.
      Ela no podia se deixar atingir pela dor causada pelas palavras dele. Se Fliss permitisse que essas palavras entrassem em seu corao, certamente a destruiriam. 
Isso provava que ela ainda estava muito vulnervel, querendo dizer que ele estava errado e precisava saber da verdade. Vidal jamais aceitaria a verdade; no era 
o que ele queria ouvir. Ele queria pensar o pior dela, assim como quisera impedir que ela entrasse em contato com o pai. Para Vidal, ela no era boa o suficiente 
para ser tratada com compaixo e compreenso.
      - Voc no pode me impedir de ter um amante se eu quiser, Vidal.
      Isso era verdade, no fim das contas.
      Sem olhar para ela, Vidal respondeu severamente:
      - Ramn  casado, pai de duas crianas. Infelizmente, o casamento est passando por momentos difceis. Ramn  conhecido por dar em cima de mulheres bonitas, 
e sua esposa no est feliz com esse comportamento. No gostaria que o casamento deles acabasse e as crianas ficassem sem pai. Pode ter certeza, Felicity, farei 
o que for possvel para que isso no acontea.
      Vidal saiu da estrada principal e entrou em uma estrada mais estreita e rstica. No fim dessa estrada, atrs de laranjeiras e limoeiros, era possvel ver o 
telhado vermelho de uma casa e as janelas do sto, o que deu a ela a desculpa perfeita para no responder  intimidao de Vidal. Em vez disso, ela recuou para 
o que esperava ser um silncio digno, seu corao apertado no peito em uma mistura de raiva e humilhao.
      Vidal dirigiu no que parecia ser um tnel de galhos, a luz do sol criava um efeito de camuflagem nas rvores. Ento, Fliss vislumbrou a casa pela primeira 
vez. Ela ficou sem ar e seu corao, cheio de emoo. Se era possvel se apaixonar por uma casa, isso acabava de acontecer.
      Com trs andares, caiada, um deleite. Havia detalhes delicados nas varandas de metal, e gernios coloridos do lado de fora. A primavera florescia em volta 
da casa. Era estranho, mas havia algo no estilo arquitetnico que lembrava a rainha Anne, o que era familiar para Fliss, ela concluiu emocionada quando Vidal estacionou 
o carro.
      -  lindo! - ela falou sem perceber.
      - Foi originalmente construda para a amante seqestrada de um de meus ancestrais. Uma mulher inglesa capturada em uma batalha entre meus ancestrais e um navio 
ingls, na poca em que os pases estavam em guerra.
      - Era uma priso? - Fliss no conseguiu disfarar seu desgosto.
      - Se voc quer colocar desse modo. Eu diria que o amor que sentiram um pelo outro os aprisionou. Meu ancestral protegeu sua amante mantendo-a aqui, longe do 
julgamento da sociedade. Ela protegeu seu amor mantendo-se fiel a ele e aceitando que o dever dele com a esposa significava que nunca poderiam estar oficialmente 
j untos.
      Com base no que Vidal havia dito, Fliss esperava que a casa tivesse um ar triste e desiludido, contudo sua primeira impresso, quando entrou no hall de paredes 
brancas, foi que a casa estava  espera de alguma coisa ou de algum. Seu pai?
      O ar estava quente e suave, como se a casa fosse arejada diariamente. Fliss percebeu a suave essncia de colnia masculina. Uma sensao de nsia e tristeza 
tomou conta dela, pegando-a desprevenida. Ela realmente acreditava no ter mais lgrimas para derramar pelo pai que nunca conhecera.
      - Meu... meu pai morou aqui sozinho? - ela perguntou a Vidal para quebrar o gelo.
      - Ana, a governanta, morou aqui com ele. Ela se aposentou e hoje vive no vilarejo com sua filha. Venha, vou lhe mostrar a casa. Depois que voc satisfizer 
sua curiosidade, voltaremos ao castelo.
      Fliss percebeu que Vidal estava tentando disfarar sua impacincia e desgosto.
      - Voc no queria que eu viesse aqui, no ? Apesar de meu pai ter me deixado a casa - ela o repreendeu.
      - Isso mesmo - concordou Vidal. - No queria e no vejo finalidade nisso.
      - Assim como voc no viu finalidade na carta que escrevi para ele. Na verdade, voc acha que seria melhor se eu nem tivesse nascido, no ?
      Sem esperar pela resposta de Vidal, afinal ela j sabe qual seria, Fliss seguiu em frente.
      Apesar de a decorao ser bem mais simples que a do castelo, a casa possua uma moblia que parecia valiosa.
      - Qual era o cmodo preferido de meu pai? - ela perguntou enquanto explorava a sala de jantar no lado Oposto do hall de entrada, bem como a pequena sala de 
espera, alguns corredores, despensas e um pequeno escritrio nos fundos da casa.
      Por um segundo, ela pensou que Vidal no responderia. Seus lbios estavam selados e ele parecia distante, quase inquieto. Fliss respirou fundo.
      Mas, ento, ele virou-se para ela e respondeu friamente:
      - Este aqui. - Ele abriu a porta de uma pequena biblioteca. - Felipe adorava ler e ouvir msica. Ele... - Vidal fez uma pausa, olhando para o infinito antes 
de continuar. - Ele gostava de passar as noites aqui ouvindo msica e lendo seus livros preferidos. O sol se pe deste lado da casa; ao final do dia este quarto 
 muito agradvel.
      Vidal estava descrevendo um homem bastante isolado, talvez solitrio, que sentara naquele cmodo, imaginando como seria sua vida se tudo tivesse sido diferente.
      - Voc passou muito tempo com ele? - Fliss pde sentir as palavras ameaando bloquear sua garganta. Ela levou a mo ao pescoo, e brincou com a corrente que 
pertenceu a sua me, como se isso pudesse diminuir a dor que estava sentindo agora.
      - Ele era meu tio. Cuidou dos pomares da famlia. - Vidal deu de ombros, um gesto que Fliss interpretou como descaso e indiferena. - Naturalmente, passamos 
muito tempo juntos.
      Vidal estava se afastando dela. Soltando a corrente, Fliss olhou para a escrivaninha, a luz do sol refletindo no porta-retrato prateado chamava sua ateno. 
Motivada por um impulso que no conseguiu controlar, o corao bateu forte no peito e ela viu a fotografia de sua me, segurando um beb que Fliss sabia ser ela 
mesma.
      Com as mos trmulas, ela colocou a fotografia de volta na escrivaninha.
      O celular de Vidal tocou e, enquanto ele afastou-se para atender, Fliss estudou a fotografia novamente. Sua me parecia to jovem e to orgulhosa de seu beb. 
O que seu pai havia pensado quando vira essa fotografia? Ser que sentira arrependimento, culpa, talvez vontade de ter a mulher que amara e sua filha perto dele? 
Fliss nunca saberia.
      Ele havia colocado a fotografia sobre a escrivaninha, o que significava que olhava para ela todos os dias. Fliss tentou bloquear o sentimento de profunda tristeza 
tentando tomar conta dela, mesmo assim seus pensamentos a atormentavam. Ser que ele havia tido a esperana de conhec-la algum dia? Ele nunca tentara entrar em 
contato com Fliss.
      Vidal desligou o celular.
      - Precisamos voltar para o castelo - ele informou. - Ramn est com o engenheiro hidrulico. Preciso tomar uma deciso sobre o problema com o fornecimento 
de gua. Podemos voltar aqui amanh se quiser ver o andar de cima.
      A voz de Vidal sugeria que ele no compreendia a finalidade de tudo aquilo, mas Fliss tinha mais uma pergunta afazer:
      - Meu pai soube da morte de minha me? Ela percebeu que Vidal respirou fundo.
      - Sim, ele soube - Vidal respondeu.
      - Como voc sabe disso?
      No era preciso ver os lbios rijos de Vidal ou ouvir sua respirao irritada para saber que ela est testando a pacincia dele. Mas Fliss no se importava.
      - Sei porque fui eu quem lhe deu a notcia.
      - E ele... Ningum pensou em mim? Meu pai era meu nico parente vivo! -A dor que ela sentira com a perda da me aos dezoito anos voltou com fora total. - 
Foi voc! Voc nos manteve afastados - ela acusou Vidal.
      O olhar de Vidal fez com que Fliss se calasse.
      - A sade do seu pai ficou bastante debilitada depois que ele foi separado de sua me. O mdico aconselhou que ele vivesse uma vida tranqila, sem presso 
emocional. Por isso, julguei que...
      - Voc julgou? Quem  voc para fazer julgamentos e tomar decises que afetem diretamente a mim? - Fliss questionou amargamente.
      - Eu era e continuo sendo o chefe desta famlia.  meu dever fazer o que acho certo para a famlia.
      - E impedir que eu visse meu pai, que o conhecesse, foi o que voc considerou certo, foi isso?
      - Minha famlia tambm  sua famlia. Quando tomo certas decises, o fao considerando todos os envolvidos. Agora, se voc conseguir superar esse sentimentalismo 
infantil, eu gostaria de retornar ao castelo.
      - Para encontrar com o engenheiro, porque irrigar suas plantaes  mais importante que pensar sobre o mal que voc causou. - Fliss exibiu um sorriso amargo. 
- Voc  muito arrogante e sem corao para pensar em fazer algo assim. 
      Sem esperar por uma resposta, ela caminhou at a porta e saiu.
      Fliss olhou para a comida em seu prato com pesar, colocando a mo sobre o pescoo, onde deveria estar a corrente que pertencera a sua me. Ainda sentia o mesmo 
desalento que sentira quando se olhara no espelho e percebera que no estava mais l.
      Num primeiro momento, ela teve a esperana de a corrente ter se soltado e cado dentro da blusa, mas, depois de procurar cuidadosamente em suas roupas e pelo 
cho do banheiro sem encontrar a jia de sua me, foi preciso admitir a dura verdade. Ela perdera a corrente e o pingente que foram um tesouro que a ligavam no 
apenas  me, mas ao pai, j que havia sido ele quem dera a jia de presente.
      Sua angstia transformou-se em lgrimas. Fliss tentou se recompor, vestiu-se para o jantar e fez um esforo para conversar amigavelmente com a esposa de Ramn, 
Bianca.
      O gerente da propriedade rural e sua esposa foram convidados pra o jantar. Ser que Vidal havia feito isso para oficializar a advertncia feita mais cedo? 
Fliss perguntou-se. Se fosse isso, no havia necessidade. Mesmo sem a esposa, Fliss jamais encorajaria os flertes de Ramn. Apesar de ser charmoso, sua presena 
no provoca desejo nela, muito diferente de Vidal.
      Fliss brincou com a comida em seu prato, tentando negar o que acabara de admitir para si mesma. S podia ser um cruel truque da natureza o fato de ela estar 
fisicamente ciente de suas reaes ao nico homem que no deveria achar atraente.
      Segurando o garfo, ela voltou sua ateno para Bianca, tentado distrair os pensamentos. A mulher de Ramn era bastante atraente, na casa dos 30 anos e de aparncia 
tpica espanhola. Tendo em mente o que Vidal lhe contara, Fliss no se surpreendeu com o comportamento um tanto reticente de Bianca. A prpria Fliss no estava disposta 
a animar a mulher, apesar de seus avs e sua me terem lhe ensinado boas maneiras.
      Contudo, em vrias ocasies Fliss no conseguiu impedir que sua mo tocasse o pescoo em busca da jia perdida, e seu olhar ficava triste ao tentar aceitar 
a ausncia do colar.
      O vinho branco do Chile, onde Vidal tinha interesses financeiros, foi servido com o peixe, pescado na regio. Em seguida, Vidal serviu um vinho mais doce para 
acompanhar a sobremesa de amndoa, tambm preparada com ingredientes locais.
      Foi quando Vidal serviu o copo de Fliss, que comentou inesperadamente:
      - Voc no est usando sua corrente. .
      S o fato de ele ter percebido j pegou Fliss desprevenida, deixando de lado a dor da perda. E de alguma forma ela conseguiu controlar sua reao e responder 
friamente:
      - No. Acho que a perdi.
      Ela estava imaginando a forma como Vidal olhava para seu pescoo antes de servir o copo de Ramn e depois o dele? No havia dvida de que sua pele ficou queimada 
com aquele olhar.
      Desesperada para no pensar na perda da jia ou em sua reao contraditria a Vidal, Fliss voltou novamente  ateno para Bianca, perguntando a ela sobre 
seus filhos. Ela foi retribuda com um belo sorriso, e Bianca passou muito tempo falando sobre as qualidades dos dois filhos.
      Ouvindo isso, Fliss no conseguiu deixar de pensar em como deveria ser ter filhos e ser me. Sentir aquela alegria e orgulho materno que via to claramente 
em Bianca. Ela descreveu os filhos. Olhos e cabelos escuros, pele bronzeada; pareciam miniaturas do pai.
      Contra sua vontade, o olhar de Fliss voltou-se para Vidal, que estava conversando com Ramn sobre as recomendaes do engenheiro para resolver o problema com 
a gua. E claro, ela no precisava imaginar como seriam os filhos de Vidal. Afinal, j havia visto uma fotografia dele quando criana. Ela crescera com aquela imagem 
e estava registrada nela para sempre. A me dos filhos dele tambm contribuiria, e ela seria...
      Seria tudo que ela no era, Fliss alertou a si mesma, com a mo trmula segurando a taa de vinho. Por que ela estava preocupada com quem Vidal se casaria, 
com a aparncia dos filhos dele ou se ele teria filhos? E por que tinha essa mistura de nsia e perda dentro dela, bem no ventre?
      
      
      
      
CAPTULO SETE
      
      
      
      
      A noite havia acabado, e Fliss retornou ao quarto. O pescoo nu contra o roupo preto que vestiu aps o banho recordou-lhe do que havia perdido e a encheu 
de culpa.
      Sua me sempre usara, estimara e guardara o colar. Fliss no tinha nenhuma lembrana visual da infncia em que a me no estava com a jia em volta do pescoo, 
e agora ela a perdera por conta do prprio descuido. De certa forma, era to doloroso quanto  perda da prpria me, trazendo de volta os sentimentos confusos e 
infelizes que havia sentido quando criana, questionando por que no tinha um pai. Aquela corrente e o medalho uniram seus pais, e atravs dessa unio Fliss se 
unira a eles. Era sua nica conexo material com os dois, e agora estava perdida. Aquele precioso elo fora partido.
      Mas ela ainda tinha outro elo com o pai, Fliss lembrou. Ainda tinha a casa que ele deixara para ela.
      S por um tempo, Fliss se recordou. Vidal deixara claro que esperava e desejava que ela vendesse a casa para ele.
      Fliss estava prestes a tirar o roupo e deitar na cama, quando ouviu uma batida na porta. Fechando o roupo hesitantemente, ela foi atender a porta, pensando 
ser uma das empregadas.
      Mas no era uma das empregadas. Era Vidal, e agora ele estava dentro do quarto e havia fechado a porta.
      - O que voc quer? - Ser que ele percebera a ansiedade na voz dela e presumira que vinha de sua vulnerabilidade  presena dele? Fliss esperava que no enquanto 
observava o rosto dele se contorcer em uma expresso de desprezo cnico.
      - No quero voc se  isso que espera. Um homem... Qualquer homem para satisfazer o desejo que sente por Ramn?  isso que espera que eu seja, Felicity?
      - No! - ela negou veementemente.
      Sem maquiagem, de cabelos emaranhados e ps descalos, sem mencionar o fato de estar nua debaixo do roupo, Fliss sentiu-se em desvantagem em relao a Vidal, 
que ainda vestia as mesmas roupas que havia usado durante o jantar.
      Mas a vulnerabilidade emocional a deixava em mais desvantagem, ela pensou, quando Vidal negou sua resposta com violncia.
      - Mentirosa! Conheo voc, lembra?
      - No, voc no conhece. No me conhece nem um pouco. E, se veio at aqui para me insultar...
      -  possvel insultar uma mulher como voc? Pensei que estivesse alm disso. Uma mulher que se doa a qualquer um e transforma a intimidade entre um homem e 
uma mulher em uma piada.
      As palavras dele, cada insulto, eram como uma faca perfurando seu corao e seu orgulho.
      - Vim trazer isto - Vidal disse brevemente, mudando de assunto e abrindo a mo, revelando a corrente e o pingente aninhados nela.
      Fliss ficou sem palavras. Ela piscou os olhos e olhou novamente para ter certeza de que no estava imaginando.
      - Minha corrente - ela disse, sacudindo a cabea, quase no acreditando. - Como? Onde?
      Vidal deu de ombros com indiferena, quase tdio.
      - Lembrei que estava com voc quando entramos na casa, me pareceu lgico que foi perdido l. Depois que me despedi de Ramn e Bianca, dirigi at a casa. Lembrei 
que voc estava brincando com a corrente quando entramos no escritrio de Felipe, por isso comecei a busca naquele cmodo. Estava no cho ao lado da escrivaninha.
      - Voc fez isso por...
      Por mim, ela estava prestes a dizer. Mas ficou feliz em conseguir parar, pois ele respondeu:
       - Sei que significou muito para sua me.
      Vidal conseguiu atravessar a vulnerabilidade da voz de Fliss. Ele no queria v-la como uma mulher vulnervel que merecia compaixo, porque, se o fizesse, 
se permitisse essa impresso dela dentro de seu corao, significaria que... Significaria o qu?
      No significaria nada, Vidal respondeu a si mesmo amargamente.
      - Sim, isso mesmo - Fliss concordou. Obviamente ele no havia ido at l por ela. Vidal jamais faria qualquer coisa por ela. - Fico feliz que tenha encontrado 
- foi tudo que ela conseguiu dizer, e estendeu a mo para pegar o colar, os dedos encolhendo para no toc-lo. Porque ela estava com medo. De qu? De toc-lo, ou 
de que, se tocasse, no conseguisse parar?
      Ele no deveria estar ali. Ele sabia disso. Ento, por que estava? Vidal zombou de si mesmo. Para testar seu autocontrole? Para provar que conseguia andar 
em meio ao fogo? Para sofrer o tormento que estava sofrendo agora? Ele sabia que Felicity estava nua debaixo do roupo. Ele sabia que, dado seu histrico sexual, 
suas inclinaes sexuais, ele poderia possu-la agora mesmo, satisfazer-se nela, com ela, at que a necessidade que crescia e gritava dentro dele fosse silenciada.
      Um tremor atravessou o corpo de Fliss.
      - Pegue - Vidal exigiu, estendendo o brao, o ouro brilhando na palma de sua mo.
      Por um momento, seus olhares se encontraram, e ningum disse uma palavra. O equilbrio de Fliss estava oscilante, enquanto seus sentidos registravam a tenso 
sensual no ar entre eles. Vidal ergueu a mo, e por um segundo Fliss pensou que ele fosse toc-la. Ela deu um passo para trs, esquecendo-se de que havia uma pequena 
mesa ali e tropeando nela.
      Ela ouviu Vidal blasfemar quando tropeou. Mesmo assim, Fliss ergueu as mos para defender-se dele, preparada para cair em vez de arriscar toc-lo, mas j 
era tarde demais. As mos dele estavam segurando-a pelos braos, e o rosto dele estava tomado por hostilidade e desprezo quando seu olhar desceu at o roupo aberto.
      Um deles emitiu um pequeno som. Fliss no sabia se havia sado dela ou Vidal. Seu peito ergueu-se abruptamente na tentativa de expandir os pulmes e respirar 
mais oxignio. O tempo parecia ter parado. A respirao de Fliss congelou enquanto os dois se encaravam em silncio. Fora ela a primeira a interromper o contato 
visual e olhar fixamente para a boca de Vidal, com os lbios abertos? Fliss no sabia dizer. S sabia que, quando olhou novamente para os olhos dele, estavam em 
chamas e sabiam que ela o desejava.
      - No. 
      A negao dela foi suave, o som agonizante do desespero, mas Vidal ignorou. Seu olhar era obscuro, por isso Fliss no conseguiu interpret-lo quando ele olhou 
para a boca dela. O corao dele disparou ao perceber o desejo de ambos. Ela observou enquanto ele baixava  cabea, seus lbios quase se tocando, a respirao dele 
acariciando sua pele. Incapaz de ficar apenas observando, Fliss aproximou-se mais.
      - Maldita!
      Fliss sentiu a fria na voz de Vidal quando a empurrou para longe. A corrente caiu no cho entre eles. Instintivamente, ela pegou a jia e congelou em choque 
quando Vidal a segurou novamente.
      - Voc no consegue se conter, no ? Qualquer homem serve, no  mesmo? Qualquer homem, desde que lhe d isto.
      Ele a beijou, e ela sentiu seu desprezo. Pde sabore-lo. Ele queria humilh-la, destru-la, e ela queria... Ela queria que ele visse que estava errado. Ela 
queria puni-lo por julg-la erroneamente. Ela queria ver o orgulho dele despedaado nos escombros de suas concepes precipitadas. E, agora, ela podia fazer isso.
      Agora, ela podia transformar a paixo alimentada pela raiva em sua prpria salvao. O sacrifcio de sua crena de que a intimidade sexual deveria ser algo 
proveniente do amor mtuo seria, no fim, a humilhao de Vidal.
      Talvez isso fosse o que devesse acontecer? Seria essa a nica maneira de ela se libertar da dor emocional que ele causara? Talvez isso fosse algo que ela precisava 
vivenciar para ser capaz de finalmente destruir o sonho tolo que uma vez tivera?
      Lenta e deliberadamente, como se seu corpo estivesse pesado e entorpecido, Fliss aproximou-se de Vidal, juntando a parte inferior de seu corpo com a dele. 
Ele levou as mos at os botes da camisa, abrindo-os, enquanto suas lnguas deslizavam uma sobre a outra. Fliss estremeceu, mas ignorou a sensao. No se tratava 
de seu prprio desejo, ao menos no de seu desejo por Vidal, tratava-se do desejo de libertar-se de tudo em sua vida que estava relacionado a ele.
      Com a camisa desabotoada, ele ainda a beijava. Um beijo bruto e exigente, sem suavidade ou carinho. Quanto tempo demoraria at que ele sentisse raiva e a afastasse 
novamente? Ela no poderia permitir que acontecesse. Deveria alimentar a raiva dele at que se transformasse em desejo fsico. E talvez a melhor maneira de faz-lo 
fosse confirmando o julgamento que Vidal fizera dela.
      Muito cuidadosa e deliberadamente, ela interrompeu o beijo e, com o mesmo cuidado, deixou que o roupo casse ao cho. Deu um passo na direo dele e colocou 
os braos em volta do pescoo.
      Fliss ouviu Vidal gemer, sentiu as mos firmes em sua cintura, a boca fechando-se sobre a dela.
      Ela estremeceu em repugnncia. O que estava fazendo? Apostara e perdera em um momento de auto-destruio, e agora...
      Ele no podia deixar isso acontecer. Vidal sabia. Estaria perdido se cedesse aos encantos de Felicity. E seria atormentado para sempre. Seu corpo a desejava 
vivamente. Durante sete anos, convivera com a necessidade de t-la. Olhou para o corpo dela e estremeceu violentamente enquanto lutava contra a vontade de pegar 
o que ela est oferecendo. Partindo de sua volio e contra sua vontade, as mos deslizaram da cintura at os seios fartos, os mamilos j estavam rijos em uma promessa 
sensual, pressionando a palma de sua mo.
      - Oh! - Fliss suspirou, pega de surpresa pela sensao prazerosa do toque de Vidal. Ela no esperava isso, o que fez com que arregalasse os olhos e suavizasse 
os lbios. Desejo? Seu corpo estremeceu. Era errado desej-lo ou fazia parte do que deveria acontecer?
      Vidal percebeu e viu a excitao de Fliss. Ela o desejava! Isso acabou com o que restava de seu autocontrole, afundando-o no desejo que sentia por ela.
      Ele tentou conter o fluxo crescente de sua necessidade. O corao batia com fora contra a parede do peito. Ele sabia o que devia fazer, mas parecia impossvel 
domar a feroz corrente de desejo que o possuiu. Em algum nvel mais profundo, seu instinto dizia que Felicity pertencia a ele, sempre pertencera.
      Os lbios dela estavam entregues a ele, separando-se para receber as investidas de sua lngua, e ele aproveitou e saboreou a doura selvagem da boca de Fliss.
      Sob o beijo possessivo de Vidal, Fliss tensionou-se em um suave gemido de deleite. No existia razo para controlar o desejo ganhando vida dentro dela. Por 
que insistir em algo impossvel? Por que resistir ao que j estava determinado pelo destino?
      A explorao destemida da lngua de Vidal fez com que ela se entregasse, derramando desejo lquido por seu corpo. E, quando retirou a lngua, para desliz-la 
sobre seus lbios inchados, Fliss o agarrou com fora, lanando-se  deriva em um oceano de sensualidade.
      O motivo pelo qual estavam ali, juntos, no importava mais. Evaporou como a nvoa da manh sob o calor do sol, carbonizado pelo poder do desejo compartilhado.
      Agora, foi Fliss que se apossou da lngua de Vidal, abrigando-a na intimidade mida de sua boca para acarici-la. Ela estava nos braos de Vidal, e estavam 
se beijando como se a ligao entre eles tivesse ganhado vida, como uma fora invisvel que os unia.
      Ela aceitou as mos de Vidal em seus seios nus, tencionando-se como se oferecesse sua excitao, o corpo todo estremecendo violentamente quando ele deslizou 
os mamilos entre o polegar e o dedo indicador em uma carcia ertica que fez com que ela cravasse as unhas nos braos dele.
      Vidal no precisava que ela dissesse o que queria que ele fizesse. Ele parecia compreender instintivamente as necessidades de Fliss, estimulando-as, alimentando-as 
com seu toque e com a crescente paixo de seus beijos.
      Ela no tinha outro desejo alm de submeter-se ao prazer fornecido por Vidal, Fliss pensou vertiginosamente, perdida no calor ertico que a envolvia, possuindo 
seus sentidos, seus pensamentos e fora de vontade, como se Vidal estivesse possuindo seu corpo. Ela desejou o que estava acontecendo como nunca desejara outra coisa 
na vida. Ela nascera para isso, esperara por isso. Era seu destino, algo que a deixaria completa.
      As mos de Vidal acariciavam seus seios enquanto ele a beijava. Os dedos acariciando os mamilos acompanhavam o ritmo da lngua dentro de sua boca, criando 
um desejo crescente que pulsava pelo seu corpo como uma melodia silenciosa de luxria feminina. Como se seu desejo estivesse condicionado para responder apenas ao 
toque de Vidal, o corpo de Fliss se moveu de acordo com o ritmo que ele estava impondo. A iluminao deu um tom dourado a sua pele nua, que tinha um brilho rosado 
causado pela excitao.
      Uma voz dentro da cabea de Vidal implorou para que ele parasse, dizendo que era seu dever negar os prazeres que alimentavam seu desejo por ela, mas esse desejo 
era muito primitivo para resistir. Ele o sentira na primeira vez em que colocara os olhos nela. Porm, agora havia ultrapassado a barreira da lgica, e respondia 
a algo dentro de si que nem ele sabia que existia: o desejo masculino de conquistar, possuir, ter para si a mulher que estava abraando e acariciando. Milhares de 
anos de histria e orgulho masculino, de conquistas e vitrias o atravessavam com fora, destruindo todos os obstculos pelo caminho.
      Era esse instinto primitivo, ao qual pertenciam as necessidades mais potentes do homem, que o impulsionava a colocar as mos sobre os quadris de Fliss e pux-la 
contra o prprio corpo para que ela sentisse seu intumescido desejo por ela. Na parede, as sombras revelavam sua intimidade, detalhando a curvatura das costas de 
Fliss. quando ela se inclinou para trs. O mamilo exposto  luz, o encontro da parte inferior de seus corpos, tornando-os um s.
      Fliss perdeu a cabea. A pulsao da ereo de Vidal atravs da roupa contra sua pele nua fez surgir um desejo compulsivo de sentir a pele dele, de toc-lo, 
conhec-lo e sentir sua fora vital.
      Ela no se ops quando Vidal a carregou e a deitou sobre a cama. Ele observou cada detalhe do seu corpo nu, prolongando-se como se pudesse rasgar sua carne. 
Fliss no imaginou possuir tamanha sensualidade. Vidal emitiu um som abafado antes de deitar-se com ela, abraando-a, possuindo sua boca em um beijo ertico, enquanto 
acariciava seu corpo.
      O toque sobre sua barriga emitiu ondas de intenso deleite, fundido com o desejo feminino de sentir o toque dele ainda mais intimamente. O corpo dela tensionou-se, 
o ar ficou preso nos pulmes quando a mo de Vidal deslizou para baixo, cobrindo seu ventre, criando um ponto de calor que fez com que seu desejo por ele aflorasse. 
 umidade da pele sensvel, protegida pelos lbios inchados, se abriu sob o toque dele.
      Mais um minuto, menos que isso, em alguns segundos ele descobriria a pretenso umedecida de Fliss de ser possuda por ele. E ela esperava por isso. Em sua 
imaginao, j sentia as investidas dele, e seu corpo pulsava freneticamente s de pensar nisso. Ela o desejava tanto... completamente, por inteiro.
      A respirao de Vidal era rspida e oscilante, a boca explorando a pele dela com paixo. Os dentes, mordiscando os mamilos intumescidos. Ela o desejava de 
forma to completa que nada mais importava.
      Lentamente, Vidal libertou o mamilo de Fliss, ergueu a cabea e olhou para ela. Nos olhos dela, ele viu tudo o que queria: que ela o desejava. O olhar estava 
de acordo com a excitada antecipao de seu corpo.
      - Tire suas roupas - ela disse. - Quero ver voc por inteiro. Quero sentir sua pele contra a minha, seu corpo contra o meu, sem nada entre ns. Quero voc 
dentro de mim, possuindo-me como um homem deve possuir uma mulher. Quero voc, Vidal.
      Fliss ouviu as prprias palavras, as prprias exigncias, sentindo-se vagamente chocada. Como se viessem de outra pessoa. Mas Vidal no parecia surpreso, nem 
chocado com elas. Em vez disso, ele fez o que ela ordenou, sem desviar o olhar, enquanto despia-se, revelando a atordoante realidade de seu corpo masculino.
      Em admirao, Fliss estendeu o brao e deslizou o dedo sobre a linha de pelos escuros que dividia o torso, parando quando, ele pressionou a mo dela contra 
sua barriga na altura do umbigo. Sem dizer uma palavra, Fliss sentou-se e prosseguiu o caminho traado pelo dedo, que se tornou um movimento gradualmente mais intenso.
      Agora, sua mo e sua cabea estavam presas por Vidal, o caminho fora interrompido, seu desejo, negado.
      Acima de sua cabea, ela podia ouvir Vidal falando com ela, sua voz cansada e amortecida.
      - No posso permitir que v adiante. No enquanto meu corpo implora pela intimidade do seu.
      - Sim! - Fliss respondeu ferozmente. - Sim, Vidal.
      Quando ele a soltou, saindo da cama e pegando a cala, Fliss comeou a protestar. E ento parou. Ela arregalou os olhos quando ele pegou a carteira.
      Era bom ver que ele estava preparado, caso tivesse acabado na cama com Mariella, pensou Vidal enquanto abria a embalagem do preservativo.
      A interrupo da intimidade deu a Fliss a oportunidade de avaliar o que estava acontecendo, o que ela estava fazendo. Distante do calor do desejo das carcias 
de Vidal, a preparao dele quebrou o feitio que havia tomado conta dela. A realidade contrastava completamente com a fantasia que ela havia criado. Esse, certamente, 
era o momento de parar, de ser prtica e sincera e contar a verdade a Vidal. Mas como?
      Ela respirou fundo, a voz estava oscilante e rouca.
      - Voc no precisa... Fazer isso, porque... Porque sou virgem, ela queria dizer. Mas, antes que conseguisse, Vidal a interrompeu:
      - Posso no ser capaz de controlar o desejo que voc despertou em mim, Felicity - ele disse a ela asperamente. - Mas no sou tolo a ponto de arriscar minha 
sade sexual envolvendo-me com voc sem proteo. Voc pode ser o tipo de mulher que sente orgulho do fato de o prprio prazer aumentar com os perigos do sexo sem 
proteo, mas no sou o tipo de homem que quer colocar em risco a si mesmo e as futuras parceiras. Mas, se voc prefere parar por aqui...
      Um profundo sentimento de vergonha tomou conta dela e, por um segundo, Fliss teve vontade de mand-lo embora. Ento, a raiva que sentiu antes retornou, trazendo 
consigo o sentimento de justia.
      Ela ergueu o queixo e seguiu com seu fingimento.
      - Parar agora, quando voc... Mas eu o desejo tanto, Vidal.
      Ele estava esperando que ela interrompesse tudo? Que ela tivesse a fora de vontade que ele no tinha? Vidal fez essas perguntas a si mesmo enquanto seu corpo 
reagia  sensualidade dela.
      Ele observou a suavidade rosada de sua boca, os lbios levemente afastados e os olhos quase fechados, como se estivesse quase desmaiando de desejo.
      Raiva e vergonha. Vidal sentia ambas, por ele mesmo e por Felicity. Mas esses sentimentos no eram fortes o suficiente para conter a necessidade que tomava 
conta dele, transcendendo a lgica e a razo, levando-o para um lugar onde a nica coisa que existia era seu desejo por essa mulher.
      Ele investiu nela lentamente, absorvendo cada segundo de algo que lhe havia sido negado h muito tempo, sabendo que em sua mente ele lutara tanto para negar 
que seus corpos se encaixariam perfeitamente, e que o corpo dela receberia o seu da mesma forma incomparvel com que havia aprisionado seus sentimentos.
      Ele no deveria se sentir assim. Afinal, sabia quem ela era. Mas era como se algo dentro dele no quisesse admitir essa realidade. Como se alguma fraqueza 
se recusasse a aceitar e, em vez disso, quisesse que o que estava acontecendo pertencesse apenas a eles dois. O corpo de Vidal registrou e respondeu ao que ele estava 
sentindo. O que ele desejava. O que ele precisava.
      A raiva que sentiu antes deu lugar  vontade de esquecer o passado e transport-los para um lugar onde pudessem comear de novo, com este sentimento de necessidade 
e desejo mtuos intocados pelo que acontecera. Vidal estava perdendo a noo do que era real. A certeza do desprezo e da raiva que alimentaram suas crenas durante 
tanto tempo estava desaparecendo sob a presso dos sentimentos causados pela intimidade com Felicity. L no fundo, Vidal podia sentir um anseio crescente de que 
as coisas fossem diferentes, de que eles fossem diferentes, de modo que o que estava acontecendo entre eles fosse fruto do...
      Ele esqueceu-se do passado? O passado realmente importava? No era mais importante o fato de que ela estava ali, agora, com ele, do modo como sempre sonhara? 
Onde estava seu orgulho? Ele estava admitindo a si mesmo que a amava?
      Vidal no sabia. S sabia que segur-la assim estava derrubando as barreiras que erguera para proteger-se dela. Seu orgulho podia dizer que no devia am-la, 
mas e quanto ao seu corao? Negao, raiva, desejo, perda. Vidal sentiu tudo, um tormento de possibilidades tomou conta dele com um anseio deplorvel.
      De alguma forma, instintivamente, Fliss percebeu a mudana em Vidal e, antes que pudesse resistir, seu prprio corpo estava respondendo a ele, recebendo-o, 
desejando-o, enquanto a determinao que sentira antes desaparecia, dando lugar a um sentimento muito mais elementar e irresistvel. Ela queria que Vidal alimentasse 
esse sentimento, que ele acariciasse e incitasse esse desejo novo e intenso tomando conta dela. Era muito mais forte que a determinao motivada pela raiva que ela 
sentia antes, pensou Fliss.
      Ela era completamente incapaz de interromper os gemidos de prazer borbulhando em sua garganta, enquanto sua carne respondia s investidas rtmicas do corpo 
de Vidal no cerne de seu prazer. Aquele deleite a preencheu, tomou conta dela, mantendo-a prisioneira, exigindo que se submetesse, fazendo com que esquecesse por 
que a intimidade entre eles estava acontecendo.
      Perdido na doura amarga do momento, Vidal ficou tenso quando sentiu uma barreira erguer-se em Fliss. Seu crebro no podia ignorar a mensagem enviada. No 
espao entre as respiraes, uma confuso de pensamentos explodiu em sua mente. Ele olhou para Felicity, cujas reaes estavam mais lentas. A pele dela, macia e 
ardendo de desejo, relutava em desistir do prazer. Ela resistiu ao pensamento de que havia sido negada, quando percebeu que Vidal havia interrompido os movimentos, 
deliciosos que lhe proporcionaram tanto deleite. Ela identificou choque no rosto dele e a perspectiva de retirada. Uma retirada com a qual seu corpo no concordava.
      - No.
      A negao de Fliss poderia significar qualquer coisa, mas ela sabia que Vidal havia compreendido que significava tudo. Ela se agarrou a ele, exigindo que conclusse 
o ato sensual que iniciara, seu olhar implorando que desse a ela o que tanto desejava.
      O que estava acontecendo com ela? Onde estava a raiva que deveria estar sentindo? Como Vidal havia conseguido suaviz-la e substitu-la por essa delicadeza 
e desejo de ser possuda por ele? Fliss no sabia. No conseguia raciocinar logicamente. Seus sentimentos eram fortes demais. Ela s sabia que tudo o que sempre 
quisera estava ali, com Vidal.
      Vidal. O nome dele queimou silenciosamente dentro dela, em seu corpo, em sua pele, apegando-se a ele em um apelo mudo.
      Vidal sentiu Fliss estremecer. Ele deveria por um fim nisso. Existiam perguntas que precisavam ser feitas. A antiga histria precisava ser rescrita. Contudo, 
estavam ali, nesse momento, nesse lugar que ele sempre quisera estar. E ela o desejava.
      No havia espao para a realidade. No havia espao para sonhos partidos que pudessem ser consertados, esperanas despedaadas que pudessem ser restauradas, 
dor que pudesse ser banida.
      O corpo de Vidal tomou sua deciso, e seu movimento possessivo para dentro dela fez com que Felicity emitisse um gemido trmulo. Ela olhava para ele com a 
mesma intensidade que havia olhado quando tinha  dezesseis anos, com seu desejo inocente. S que, agora, seu olhar era de mulher. Seu desejo era o desejo de uma 
mulher. Ele esperara tanto por isso. Ele a amara durante tanto tempo, No! Mas era tarde demais para negar. Seu corpo no estava ouvindo. Estava preso em uma correnteza 
impossvel de domar.
      Ele moveu-se para dentro dela, cuidadosamente, mas com determinao, silenciando os pequenos gemidos dela, enquanto a dor se transformava em prazer; at o 
corpo dela estar livre para responder a ele como sempre quisera. Fliss concluiu que seu corpo fora criado para isso, enquanto o mundo e a realidade pareciam perder 
o foco, e havia apenas Vidal para se agarrar em meio  tempestade de prazer.
      Por fim, a necessidade que a motivou atingiu seu pice em uma exploso de prazer to intenso que ela mal pde suportar, gritando o nome de Vidal em uma mistura 
de lgrimas e palavras incompreensveis enquanto ele a segurava firme e absorvia os ltimos espasmos.
      
      
      
      
CAPTULO OITO
      
      
      
      
      Vidal olhou a escurido, analisando-a, tentando encontrar um caminho em meio a ela. O quarto estava iluminado e tudo ficou claro. Algumas coisas ficaram claras 
demais, gravadas em seu corao para sempre. A escurido que ele analisou estava dentro de si mesmo, em meio a sua negligncia por no saber. Em no ter sabido. 
Acabara com seu orgulho. Pior que isso, afinal, que orgulho ele tinha agora? Ele no sentia apenas a prpria dor, tambm sentia a de Felicity.
      Sua desiluso mostrou que no era digno do amor que tanto lutara para negar. Ele deveria saber. Jamais se perdoaria por isso, e acreditava que Felicity tambm 
no perdoaria.
      - Estou certo em pensar que a... a intimidade que compartilhamos foi, de sua parte, impulsionada pela necessidade de me punir? Para provar que eu estava errado 
sobre voc?
      - No passei os ltimos sete anos planejando seduzir voc se  isso que quer dizer - Felicity explicou.
      Eles ainda estavam juntos na cama e, por mais que ela quisesse se levantar e se vestir, Fliss suspeitava que Vidal concluiria imediatamente que ela estava 
se sentindo vulnervel.
      Vulnervel porque seu corpo estava eufrico, encantado com Vidal, pronto para explorar a possibilidade de repetir o prazer que acabara de experimentar. Tinha 
sido como se em lugar de tirar sua virgindade, Vidal desse a ela uma satisfao que s ele era capaz de proporcionar. E, se isso fosse verdade...
      Mas, no. Ela no podia pensar assim. Ela precisa lembrar como se sentira antes do prazer. Precisava lembrar porque era to importante que Vidal confrontasse 
a verdade sobre sua virgindade.
      Vidal a pressionou antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
      - Chega de jogos, Felicity - ele disse, com a voz controlada e desprovida de emoo. - Voc fez questo de que eu tirasse sua virgindade no para satisfazer 
a mim ou a voc mesma, mas, sim, para me punir. No como ato de intimidade, mas como ato de retribuio.
      J que a voz dele estava to inexpressiva, era estranho que ela sentisse como se ele estivesse escondendo o peso de alguma emoo. Ele s estava fazendo com 
que ela se sentisse culpada. E estava fazendo isso porque no queria admitir que era ele quem estava errado.
      - Voc me julgou mal e continuou julgando - ela recordou. - Continua jogando meu suposto passado na minha cara. Eu no planejei o que aconteceu se  isso que 
est pensando, mas, quando apareceu  oportunidade, eu quis que acontecesse.
      - Voc poderia ter parado quando viu que eu percebi que voc era virgem.
      Uma onda de apreenso percorreu a espinha de Fliss. Ele imaginara que ela sentira tanto desejo que se havia se esquecido de seu plano original? Isso fez com 
que ela se sentisse humilhada. Fliss tinha 23 anos agora, no  dezesseis, e no estava pronta para rir do fato de ter esperado por ele durante todos esses anos.
      - Talvez eu tenha sentido que sempre haveria dvida e voc poderia optar por pensar que simplesmente imaginou minha virgindade.
      - Talvez?
      Fliss deu de ombros com nervosismo.
      - Qual seria o objetivo? Voc nunca gostou de mim, Vidal - ela continuou, antes que ele pudesse responder. - Ambos sabemos disso. Queria ter certeza de que 
ambos soubssemos da verdade.
      - Ento voc permaneceu virgem na esperana de que surgisse uma oportunidade para me confrontar com a verdade?
      Ele estava debochando dela. Fliss tinha certeza. Podia sentir que estava perdendo o autocontrole.
      - Voc faz idia de como  ser rotulada da maneira como voc me rotulou? No apenas por suas palavras e crenas sobre mim... Mas h forma como elas impactaram 
no modo como eu me sinto em relao a mim. Tenho 23 anos. Como acha que eu me senti ao ter que explicar ao homem pelo qual poderia me apaixonar que eu nunca fiz 
sexo? Ele pensaria que eu sou uma aberrao.
      - Ento a culpa  minha,  isso, de que voc permaneceu virgem?.
      - Sim. No. No vejo finalidade em discutirmos isso. Quero pr um fim em tudo e seguir em frente. Como eu disse, sei que nunca gostou de mim ou do fato de 
que eu existo. Voc provou isso quando no permitiu que escrevesse para meu pai.
      - Voc me desejava.
      - No, eu desejava justia.
      - Voc estava excitada comigo, com meu toque.
      - No, fiquei excitada em pensar que voc seria forado a admitir que est errado. Emoes fortes fazem isso. Afinal, voc nem gosta de mim. Mas voc... voc...
      - Fiz amor com voc? Excitei voc? Possu voc?
      Ele era rpido demais, a lgica dele era muito afiada para que ela a combatesse em um momento em que s conseguia pensar nos deleites do prazer que ele lhe 
proporcionara. E esperava que se repetisse? Desesperadamente, Fliss lutou para encontrar um meio de ficar to indiferente ao que acontecera quanto Vidal. Mas a verdade 
era que no tinha como. A verdade era que, se ele virasse para ela agora e a tomasse nos braos... Se a tocasse como tocara antes...
      - No quero falar sobre isso. S quero que voc se v.
      No, ela no queria. Ela queria que ele ficasse. Queria que ele ficasse e a abraasse e... O que, a amasse? Ela no tinha mais  dezesseis anos.
      Vidal fechou os olhos. Por que ele estava fazendo isso? O que esperava conseguir? For-la a dizer que o amava da mesma maneira que ele fora forado a aceitar 
que a julgara mal? Ele era esse tipo de homem? Um homem cujo orgulho exigia que ela o amasse simplesmente porque ele a amava? Havia um gosto amargo na boca de Vidal 
e um peso em seu corao. O mal que fizera a ela no fora suficiente?
      Fliss ouviu Vidal respirar fundo. No em sinal de arrependimento, claro. Ela no confiou em si mesma para virar-se e olhar para ele quando percebeu que ele 
estava saindo da cama. Ela tambm no observou enquanto ele se vestiu e, finalmente, saiu do quarto.
      A euforia que Fliss sentiu havia passado. Ela sentia-se vazia, emocionalmente desamparada em seu corao. O que ela mais queria  estar nos braos de Vidal, 
saber que o que eles compartilharam havia sido especial. Ela era tola assim? Era isso o que ela realmente esperava? Que, como em um conto de fadas, seu beijo transformasse 
tudo instantaneamente e fizesse Vidal se apaixonar perdidamente por ela?
      Perdidamente apaixonado por ela? No era isso que ela queria. Era?
      No estava escondida dentro dela a semente da pessoa que fora aos  dezesseis anos, com sonhos e iluses (desiluses) romnticas? E no era verdade que a intimidade 
que eles compartilharam ameaara germinar essa semente dentro dela?
      Fliss cobriu o rosto com as mos, seu corpo tremia por inteiro enquanto tentava convencer a si mesma de que tudo estava bem; de que ela estava segura e no 
amava Vidal.
      Em seu quarto, Vidal permaneceu imvel e em silncio. Ele deveria tomar um banho, mas o cheiro de Felicity ainda estava impregnado em sua pele. Agora, era 
tudo o que restava dela, alm do que estava guardado na memria, e ele queria se agarrar a isso o mximo possvel. Como um adolescente encantado com o primeiro amor.
      Ou o nico amor de um homem.
      Ele no podia mais esconder a verdade. Nunca havia deixado de amar Felicity.
      Se ele estava assim, era por causa do cime e da paixo que o levaram a um lugar enfadonho de arrependimento, criando um deserto em seu corao, sendo eternamente 
atormentado pela miragem do que poderia ter sido. No lhe trouxera conforto ou satisfao saber que Fliss sempre o desejara, e que esse desejo superara qualquer 
idia de vingana que ela pudesse ter tido. Ele conhecia bem o poder do desejo verdadeiro e era capaz de reconhec-lo nela e em si mesmo. Se tivesse coragem, poderia 
for-la a admitir que o desejava, mas que satisfao teria com isso?
      Ele causara um mal terrvel ao julg-la erroneamente, e isso no tinha desculpa, no tinha como ser desfeito. Teria de conviver com o fato pelo resto da vida. 
Mais um fardo para carregar junto com o que carregava h sete anos. O fardo de am-la to intensamente que no existia espao em sua vida para outra mulher. Pronto. 
Ele admitiu. Ele a amara na que poca e amava at hoje. Nunca deixara de am-la. Na verdade, nunca deixaria de amar.
      Foi o fardo que Felicity teve de carregar que pesara mais em sua conscincia, em seu corao. De seu orgulho e cime nascera a crena de que preservaria a 
inocncia de Fliss at que ela fosse adulta e ele finalmente pudesse ganhar o corao da mulher por quem se apaixonara. Quando jovem, era arrogante e egosta, por 
isso no fora capaz de suportar a idia de que outro homem tomando o que era seu. Ficara furioso com Felicity por escolher outro homem no lugar dele, e a julgara 
mal e a punira por isso.
      
      
      
      
CAPTULO NOVE
      
      
      
      
      - Vou deix-la sozinha para concluir a vistoria da casa. Minha reunio com o engenheiro no vai demorar. Assim que terminar, venho buscar voc. Depois, retornamos 
para Granada.
      Fliss concordou. Sentiu o corao apertado em um turbilho de emoes enquanto ficou parada com Vidal no hall de entrada da casa de seu pai. Ela havia dormido 
mal e seu corpo estava perturbado, como se estivesse fora da realidade. Fliss reagiu  proximidade com Vidal como se fossem amantes, desejando estar mais perto dele. 
Em vrios momentos, ela sentiu um impulso quase incontrolvel de ficar mais perto dele, seus sentidos implorando pela intimidade de estar prximo.
      Era sempre assim depois do sexo? Sempre havia essa necessidade de permanecer junto? O desejo de tocar e ser tocado? De abraar e saber que o outro compartilhava 
seus pensamentos e sentimentos? De alguma forma, Fliss concluiu que a resposta era no, o que significava que...
      - Hoje, pela manh, no consegui encontrar a corrente de minha me - ela falou apressadamente, tentando bloquear os pensamentos e lembranas da noite anterior. 
Contudo, a simples meno do objeto que dera incio a tudo foi suficiente para que ela sentisse o corpo queimar.
      - Est comigo. O prendedor est com defeito, mandarei consertar quando voltarmos a Granada.
      - Obrigada.
      - Antes de deix-la sozinha, preciso dizer uma coisa.
      Fliss nunca vira Vidal to srio, nem sua voz to seca, nem naquela noite fatdica em que olhara para ela com desprezo enquanto estava presa a Rory.
      Ela ficou automaticamente tensa, e o que Vidal disse em seguida foi um choque.
      - Devo-lhe um pedido de desculpas e uma explicao. Sei que nada poder desfazer o que j foi feito. No h explicao nem aceitao de culpa que devolva a 
voc os anos que perdeu quando deveria estar livre para... para aproveitar sua feminilidade. A nica coisa que posso fazer  esperar que a satisfao que teve ontem 
 noite tenha sido suficiente para libert-la da dor que causei no passado.
      Embora Fliss tenha estremecido ao ouvir a palavra satisfao, suspeitou que ele estivesse insultando-a sutilmente ao mencionar o prazer que lhe proporcionara, 
mas ela tentou no trair a si mesma.
      - A acusao que fiz naquela noite nasceu do meu orgulho, e no do meu comportamento. Voc olhou para mim com um desejo inocente e...
      - E por causa disso voc pensou que eu era promscua? - ela completou a frase.
      O rosto de Fliss queimou quando ele disse "desejo inocente", e, embora quisesse contest-lo, sabia que no era possvel. Definitivamente, no queria refutar 
esse assunto, por isso disse a ele friamente:
      - Voc no precisa dizer mais nada. Sei o que o motivou, Vidal. Voc no gostava de mim antes mesmo de me conhecer.
      - Isso no  verdade.
      - , sim. Voc impediu que eu escrevesse para meu pai, lembra?
      - Isso foi...
      - Foi assim que voc se sentiu em relao a mim. Eu no era boa o suficiente para escrever para meu pai, assim como minha me no era boa o suficiente para 
se casar com ele. Bem, ao menos meu pai reconsiderou nosso relacionamento, mesmo voc desejando que eu no existisse.
      Para o bem dela, era melhor deixar que acreditasse no,que estava falando, pensou Vidal. No iria desfazer o mal que j fora feito, claro. Nada faria. Mas ele 
no iria sobrecarreg-la com seu amor, um amor que ela no queria. Contudo, ela o desejava. Talvez ele tivesse descoberto tarde demais que am-la significava colocar 
a felicidade dela em primeiro lugar, mas, agora que admitia isso, seria vergonhoso e errado usar a primeira experincia sexual dela para tentar persuadi-la a am-lo. 
Ele no podia fazer isso. Mesmo que significasse perd-la.
      A casa vazia, como se seu silncio tivesse sido perturbado pela chegada de Fliss, por fim se acomodou e a recebeu, lembrando-a do ambiente da antiga casa de 
sua famlia, quando andou por ela para dar o ltimo "adeus". Enquanto caminhava pelos cmodos, Fliss pensou em seus pais, sua tristeza por eles e por tudo aquilo 
que nunca tiveram preencheu seu corao e seus pensamentos. Duas pessoas amveis que no foram fortes o suficiente para lutar contra aqueles que no os queriam juntos.
      Mas ela era a prova viva de que o amor deles existira, pensou Fliss, parada na porta do quarto principal da casa. No era o quarto de seu pai. Segundo Vidal, 
Felipe preferia dormir em um quarto menor, mais simples, que ficava no final do corredor. Um quarto cuja rigidez no dizia nada sobre o homem que o habitara.
      Agora, depois de ter concludo a explorao da casa, Fliss no tinha mais nada a fazer, exceto esperar por Vidal. Nada para fazer, exceto tentar no pensar 
na intimidade que compartilharam. Aos  dezesseis anos, ela passara muitas horas imaginando como seria fazer amor com Vidal. Agora que fizera, desejava fazer repetidas 
vezes mais. Queria que o prazer que ele lhe proporcionara fosse exclusivo dela e que Vidal pertencesse somente a ela.
      O que havia acontecido?, Fliss perguntou-se amargamente. Ao provar que Vidal a julgara mal, ela simplesmente trocara uni fardo emocional por outro. No existia 
mais fria para ocultar seus sentimentos por ele. Sentimentos verdadeiros? Era possvel algum encontrar o verdadeiro amor aos  dezesseis anos? Era possvel afirmar 
que o primeiro amante seria o amante desejado para a vida toda? Seu corao e seus sentidos responderam imediatamente. Ela amava Vidal, e a raiva que sentira por 
ele estava mistura  dor de achar que ele no a amava.
      Ela amava Vidal.
      Da janela do quarto principal, ela pde ver o carro chegando pela estrada em direo a casa. O carro de Vidal. Ele havia ido busc-la como havia dito e logo 
estariam voltando a Granada. Logo ela estaria voltando a Londres e retomando sua vida. Uma vida sem Vidal. Conseguiria suportar? Seria preciso.
      Fliss chegou ao hall de entrada no momento em que Vidal abriu a porta.
      -Voc conseguiu ver tudo que queria?
      Ela respondeu positivamente com um movimento de cabea, sem conseguir abrir a boca e falar; no agora, que seu corao queria o amor dele.
      Mais tarde naquele dia, dirigindo para longe do castelo e da propriedade rural, Fliss soube que sempre que sentisse o aroma de frutas ctricas pensaria no 
Vale Lecrin, no toque de Vidal, na paixo de seus beijos e na forma como ele possura seu corpo. Um prazer doce e amargo ao mesmo tempo.
      
      
      
      
CAPTULO DEZ
      
      
      
      
      A casa de Granada estava tomada por um ar de apreenso, devido ao fato de Vidal viajar para o Chile para uma reunio de negcios no final da semana.
      - E besteira, eu sei. Mas no consigo deixar de me sentir assim quando penso que Vidal vai viajar de avio at a Amrica do Sul. Sempre me lembro da morte 
do pai dele e me preocupo com a segurana de Vidal, mas jamais diria isso a ele. Pensaria que sou superprotetora - a duquesa confidenciou a Fliss enquanto tomavam 
o caf da manh no terrao, dois dias depois de Fliss ter retornado do castelo. - Logo voc estar de volta  Inglaterra - ela acrescentou. - Mas mantenha contato 
conosco, Fliss. Afinal, voc faz parte da famlia.
      Parte da famlia? Vidal certamente no queria que ela fizesse parte da famlia.
      Como se seus pensamentos o chamassem, Vidal apareceu e juntou-se a elas, beijando a me na bochecha e sorrindo. Ele olhou friamente para Fliss.
      - Marquei um encontro para voc com o Sr. Gonzles amanh de manh para tratar da documentao de venda da casa de seu pai - Vidal disse a Fliss.
      - No vou mais vend-la.
      As palavras saram como se tivessem vida prpria, deixando Fliss chocada e enfurecendo Vidal. At aquele momento, ela nem havia pensado em ficar com a casa 
do pai, mas agora que dissera que no vai vend-la, desafiando as expectativas dele, ela percebeu que era a coisa certa a se fazer.
      De alguma forma, Fliss sentiu a aprovao dos pais, como se pudessem toc-la. Eles queriam que ela ficasse com a casa. Nunca estivera to certa. No importava 
o quanto Vidal insistisse, ela no venderia a casa. No podia vender.
      - A casa faz parte da propriedade rural - Vidal disse severamente. - Quando foi dada a Felipe...
      - Quando meu pai deixou a casa para mim - Fliss interrompeu -, fez isso porque queria que ela fosse minha. Se quisesse devolv-la  propriedade rural, teria 
feito. E minha, e pretendo ficar com ela.
      - Para me prejudicar? - Vidal sugeriu friamente.
      - No - Fliss negou. - Pretendo ficar com a casa para mim mesma... para... para meus filhos. Para que conheam seus antepassados espanhis.
      Que filhos? Uma voz dentro de sua cabea zombou dela. Os nicos filhos que queriam ter eram com Vidal, mas nunca seria possvel. Contudo, suas palavras pareceram 
suficientes para deixar Vidal furioso. Fliss percebeu claramente.
      Ele exibiu um olhar capaz de fundir ouro e a desafiou.
      - E esses filhos, voc os trar aqui, na Espanha? Acompanhada pelo homem que os gerou com voc?
      - Sim! - Fliss respondeu, recusando-se a ser intimidada. - Por que no? Meu pai deixou a casa para mim, para que eu tivesse um pedao dele comigo.  bvio 
que vou querer compartilhar isso com meus prprios filhos. - Sobrecarregada com o que estava sentindo, Fliss o acusou emocionalmente - Voc pode at ter impedido 
que eu entrasse em contato com meu pai, mas no conseguiu impedir que ele deixasse a casa para mim como herana. Mas acredito que tentou impedi-lo.
      Fliss no conseguia dizer mais nada. Simplesmente no confiava em si mesma. Sacudindo a cabea, levantou-se e quase correu para dentro da casa para escapar 
da presena de Vidal, antes que se descontrolasse completamente.
      Apenas quando encontrou a segurana e a privacidade de seu quarto deixou os sentimentos se libertarem.
      Em seguida, a porta do quarto se abriu, e ela congelou quando Vidal entrou.
      Desta vez, ele nem se incomodou em bater. Desta vez, ele simplesmente abriu a porta, entrou e a bateu com fora.
      Ele estava irritado, furioso, selvagem e apaixonado. Fliss percebeu, e algo dentro dela assemelhou-se queles sentimentos. Uma emoo de intensidade selvagem 
e tempestuosa fez com que ela o encarasse desafiadoramente.
      - No sei o que voc quer, Vidal... Ele no deixou que ela prosseguisse.
      - No sabe? Ento, deixe-me mostrar.
      Ele aproximou-se dela e, antes que ela percebesse, agarrou-a de forma apaixonante e urgente.
      -  isso que eu quero, Felicity, e voc tambm quer. Por isso, nem perca tempo fingindo o contrrio. Eu senti, eu vi, eu saboreei em voc, e ainda est aqui. 
Voc no pensou que ao se doar para mim poderia desencadear algo que nenhum de ns  capaz de controlar? Algo pelo qual ns dois pagaremos um preo? No,  claro 
que voc no pensou. Assim como obviamente no pensou que um homem com cimes de uma menina de  dezesseis anos a qual deseja, mas nega por motivos morais, pois acredita 
que ela  muito jovem, pode errar em seu julgamento quando a encontra na cama nos braos de outro.
      O que ele estava fazendo? Ele no deveria estar ali, dizendo essas coisas. Deveria afastar-se ao mximo de Felicity. Isso era resultado de ela ter dito que 
queria manter a casa do pai para seus filhos? A angstia de pensar nela com o filho de outro homem, concebendo esse filho, gerando-o, amando-o como amava o homem 
que o dera a ela, foi insuportvel para Vidal. Uma voz dentro dele implorava para que parasse, que se afastasse enquanto ainda havia tempo.
      - Eu no estava na cama com Rory. - Foi o nico protesto que Fliss conseguiu fazer, mesmo sendo palavras sussurradas, quase incompreensveis, enquanto sua 
mente, seu corpo, seus sentidos agarraram-se ao que Vidal acabara de dizer.
      Vidal a desejava? Ficara com cimes s de imagin-la com outro homem?
      - Prometi a mim mesmo que no faria isso - Vidal disse irritado. - Disse a mim mesmo que me diminui como homem usar o desejo sexual que sentimos um pelo outro 
para tal finalidade. Mas voc no me deixa escolha.
      - Eu no deixo escolha?
      Fliss no se permitiria refletir sobre o que ele acabara de dizer, sobre compartilharem um desejo sexual, e certamente no pensaria na alegria que sentira 
ao ouvir essas palavras. Em vez disso, iria se concentrar no que era prtico e lgico, na arrogncia da crena de Vidal de que poderia entrar ali e esperar que... 
O que exatamente ele esperava?
      O corpo dela estava ficando quente, e seus pensamentos estavam perdendo o controle. Pensamentos selvagens, sensuais e muito perigosos querendo que ela se entregasse 
a ele.
      - No quando joga na minha cara seus planos para o futuro. Um futuro que inclui outro homem que ser pai de seus filhos. Ele pode lhe dar filhos, mas antes 
eu lhe darei isto, e voc me dar a paixo que prometeu todos aqueles anos. No tente negar. Voc j mostrou que me quer.
      - Qualquer mulher  capaz de fingir um org... prazer sexual - Fliss corrigiu a si mesma freneticamente.
      - Qualquer um, homem ou mulher, pode falar e fingir deleite sexual, mas o corpo humano no mente. E seu corpo me deseja. Seu corpo me recebeu, ansiou por mim, 
e, quando chegou  hora, mostrou que eu lhe dei prazer. Como farei agora. E voc no vai me impedir, porque no  isso que voc quer. Embora tente me convencer do 
contrrio.
      Fliss emitiu um pequeno som no fundo da garganta, mas era tarde demais para protestar, Vidal j a estava beijando com paixo e ela o beijava de volta com a 
mesma intensidade.
      A mo de Vidal acariciou seu seio, os dedos encontraram o mamilo ereto.
      Ela no esperava por isso, mas era o que queria. No havia como negar. Ela tentou, porm as palavras no saram de sua boca. Seu corpo, seus sentidos, suas 
emoes diziam "sim".
      Vidal reconheceu como lutou contra a necessidade que tomava conta dele agora, e como falhara. Ele no havia planejado o que est acontecendo. Na verdade, fizera 
todo o possvel para evitar que acontecesse. Mas agora no era mais capaz de controlar sua necessidade, da mesma forma que ela no conseguia esconder sua reao 
a ele.
      Intil. Era intil lutar, fugir e, mais ainda, permitir-se am-lo. E era exatamente o que Fliss estava fazendo, ela admitiu enquanto Vidal olhou-a nos olhos 
e a beijou lentamente.  sensao dos lbios dele se movendo sobre os dela com tanta sensualidade estava roubando sua resistncia. Tudo que ela queria fazer era 
responder a ele, se doar a ele, ser tocada e abraada por ele. A fora dessa necessidade fez o corpo dela tremer nos braos de Vidal como uma rvore ao vento, precisando 
do apoio dele para proteg-la da prpria vulnerabilidade.
      Vidal afastou-se e tirou a camisa, em seguida beijou-a na lateral do pescoo, emitindo ondas de prazer de modo que o controle de Fliss escapou dela como gros 
de areia sendo levados pelas ondas do mar.
      - Toque-me - ele sussurrou ao p do ouvido dela.
      A urgncia em sua voz sugeria que seu desejo estava totalmente voltado para a necessidade daquele toque e que ele estava a ponto de perder o controle. Provavelmente 
um produto de sua imaginao, e no a realidade? Vidal pegou a mo dela e colocou sobre seu peito ardente, segurando, enquanto implorava:
      - Toque-me, Fliss, como quis que me tocasse na primeira vez em que a vi.
      Incapaz de se conter, Fliss obedeceu ao comando sussurrado. Afinal, no era tudo aquilo que sempre quisera? Enquanto explorava o torso de Vidal, ela pde sentir 
a pele se aquecendo, como se respondesse aos seus dedos trmulos de excitao, assim como pde sentir a rigidez dos msculos.
      - Isso! - Vidal exclamou, quando ela chegou  cala. Isso s podia significar uma coisa. Contudo, Fliss hesitou. Estava ficando perigoso. Seguir em frente 
seria fatal, iria deix-la em um estado emocional do qual jamais conseguiria escapar.
      - Ento, voc ainda quer me atormentar? Quer? - Vidal a acusou. - Talvez eu tambm devesse atormentar voc.
      Antes que ela pudesse impedi-lo, j estava em seus braos sendo carregada para o quarto de Vidal, de estilo e decorao minimalistas, a gigantesca cama onde 
ele a deitou pareceu a Fliss o lugar mais perigoso do mundo. Ou seria pelo fato de Vidal estar despindo-a e a si mesmo, entre beijos to estimulantes que Fliss estava 
disposta a fazer qualquer coisa para receber o prazer que ele estava oferecendo a ela? Cada beijo, cada toque a levavam para um lugar de anseio to intenso que nada 
mais existia, e, agora, seu corpo nu estremecia com a fora de seu desejo.
       Fliss no podia negar. Ela o desejava, precisava dele, sempre esperara por ele e sempre o amara.
      O corpo dela estremeceu em confirmao.
      Vidal inclinou-se e a acariciou dos quadris at os seios, em uma carcia feroz que acabou com o mamilo dela entre seus lbios, at ela pulsar em resposta a 
ele. A mo livre de Vidal estava segurando o outro seio e o joelho separando suas coxas.
      O desejo que tomou conta de Fliss era um vulco de calor derretido. A satisfao de sentir a carne nua e ereta dele, inicialmente to prazerosa, rapidamente 
tornou-se outra forma de tortura, enquanto ela arqueava em busca de mais intimidade, pressionando o quadril contra ele. Vidal afastou ainda mais as pernas dela e 
as posicionou em volta de sua cintura.
      Fliss suplicou pela sensao de t-lo dentro de si, s pensar nisso era insuportavelmente doloroso, mas Vidal estava se afastando dela. Foi isso que ele quisera 
dizer quando falara sobre atorment-la?
      Ansiosamente, Fliss tentou pux-lo para perto, mas Vidal sacudiu a cabea negativamente.
      -Ainda no - ele disse suavemente. - Quero tocar todo o seu corpo, sabore-la, conhec-la por inteiro.
      Ele estava beijando a parte de trs do joelho dela, depois subiu para a parte interna da coxa, enquanto com os dedos afastava as pregas inchadas e quentes. 
A pulsao dela aumentou de intensidade, direcionando-a para aquilo que seu corpo almejava. A carcia de Vidal em sua intimidade mida era tanto prazerosa quanto 
estimuladora. Fliss soube quando segurou o pulso dele, em uma splica silenciosa do que realmente queria.
      Vidal negou, inclinando a cabea e mergulhando a lngua na umidade entre as coxas de Fliss, acariciando levemente seu cerne, enquanto ela se agarrava ao que 
havia restado de sua conscincia at no poder agentar mais. Ela gritou para que ele conclusse o prazer que estava dando a ela, preenchendo-a com sua carne.
      - Agora! Agora! - Fliss implorou a Vidal, perdendo o controle no redemoinho de desejo que Vidal despertou dentro dela. Seus sentidos, j estimulados e excitados, 
absorviam a realidade da masculinidade de Vidal, quando ele parou, deixando que ela admirasse sua necessidade em forma de ereo.
      Fliss estremeceu agonizando de prazer, enquanto sentia a fora de Vidal pressionando para penetr-la. Seu ventre sofreu com a antecipao, os msculos prevendo 
o prazer que Vidal prometera. A primeira investida fez Fliss gritar de prazer.
      Outra investida, mais profunda e forte, e o corpo enrijeceu em volta dele.
      Ela gritou de paixo, respirando contra a boca de Vidal, completamente tomada pelo desejo.
      - Voc me deseja - ele afirmou.
      - Sim. Sim. Desejo voc, Vidal. Preciso de voc agora. - As palavras apaixonadas saram pela boca de Fliss enquanto ela se agarrava a ele, tremendo de prazer 
e antecipao.
      - Repita - ele exigiu, indo mais fundo dentro dela. - Diga o quanto voc me quer.
      - Muito, demais. No h palavras para descrever- Fliss disse, beijando-o freneticamente no pescoo.
      Agora, ele se movia dentro dela, satisfazendo suas necessidades e aumentando-as ao mesmo tempo. Fliss o apertou com fora enquanto a tenso crescia, at possu-la 
por completo, cada pulsao e cada batida do corao. Ento, veio de uma vez s. Um breve segundo, como se o tempo tivesse parado, seguido pela imploso e contrao 
violenta do corpo, levando-a para alm do prazer at o centro da tempestade. O orgasmo dela se completou com a pulsao da exploso de Vidal.
      Perdida em sua intimidade, impotente e vulnervel, Fliss agarrou-se a Vidal, sabendo que no fora possuda apenas por desejo, mas pelo amor. E o que ele sentia 
por ela?
      Ela sentiu a respirao quente dele na orelha e, com a voz trmula ela disse baixinho:
      - Vidal?
      Vidal sentiu um aperto no peito. Percebeu a emoo na voz de Felicity. A maneira como pronunciou seu nome pareceu um carinho. Contudo, a emoo veio da satisfao 
do desejo. Nada mais.
      Ele exalou lentamente. Respirando fundo, ele disse:
      - Agora estamos quites. Voc usou meu desejo por voc para provar que a julguei mal. Agora, usei o seu para provar que voc mentiu quando disse que no me 
queria.
      Fliss podia ouvir Vidal falando friamente enquanto ainda permanecia envolta na vulnerabilidade de am-lo to ntima e intensamente, totalmente incapaz de se 
proteger contra a crueldade do que ele estava falando.
      
      
      
      
CAPTULO ONZE
      
      
      
      
      Ela no podia ficar deitada assim para sempre, presa a uma mgoa to intensa que estava alm de qualquer lgrima, Fliss disse a si mesma. Devia ter tomado 
banho e trocado de roupa depois que Vidal se fora, mas no se lembrava de ter feito isso. S conseguia se lembrar das ltimas palavras dele, palavras cruis. Ela 
fora louca em pensar que o que acontecera entre eles mudaria alguma coisa. Ele a odiava.
      Algum estava batendo na porta do quarto. Fliss ficou tensa. Vidal retornara? Ser que queria dizer mais coisas cruis? O corao dela ficou apertado de dor. 
Houve uma segunda batida na porta. Ela precisava responder. Fliss levantou-se e caminhou cambaleante at a porta, soltando um suspiro de alvio quando viu a duquesa 
no corredor olhando para ela com tenso nos olhos.
      - Posso entrar? - a duquesa perguntou. - Preciso conversar com voc sobre Vidal e sobre o que voc falou antes.
      Fliss percebeu que, no calor do momento, quando discutira com Vidal mais cedo, se esquecera completamente da presena da duquesa, uma testemunha silenciosa 
das acusaes de Fliss contra seu filho. Incapaz de fazer outra coisa, ela concordou e recebeu a duquesa, fechando a porta do quarto.
      - Precisava falar com voc - disse a duquesa, sentando-se e uma das cadeiras perto da lareira, obrigando Fliss a sentar-se na outra ou ficar em p. - Nenhuma 
me gosta de ver o filho ser tratado como voc tratou Vidal hoje. Aprender isso algum dia. Mas no  apenas para o bem de Vidal que quero falar com voc, Felicity. 
 para o seu bem tambm. Amargura e ressentimento so destrutivos. Corroem a pessoa at no haver mais nada alm dessas emoes destrutivas. Odiaria ver tais emoes 
destruindo voc. Principalmente quando esses sentimentos no so necessrios.
      - Sinto muito se a ofendi - Fliss desculpou-se. - No foi minha inteno. Mas a forma como Vidal se comportou, impedindo que eu entrasse em contato com meu 
pai...
      - No, isso no  verdade. No foi Vidal. Ao contrrio. Voc deve muito a Vidal, e  graas a ele que voc tem a... Oh!
      A duquesa levou a mo  boca em um gesto de culpa, sacudindo a cabea negativamente.
      - Vim at aqui para defender Vidal, no para... Mas deixei minhas emoes tomarem conta. Por favor, perdoe o que eu disse.
      Esquecer? Como poderia?
      - O que no  verdade? - Fliss exigiu saber. - E o que devo a ele? Por favor, me diga.
      - No posso dizer mais nada - respondeu a duquesa, visivelmente confusa e desconfortvel. - J falei mais do que deveria.
      - Voc no pode dizer algo assim e depois no explicar - Fliss protestou, sentindo-se igualmente emocional.
      - Sinto muito - a duquesa desculpou-se. - No deveria ter vindo aqui. Oh, estou to fora de mim. Sinto muito, Fliss. Sinto mesmo. - Ela se levantou e caminhou 
em direo  porta, fazendo uma pausa antes de abri-la. - Eu realmente sinto muito.
      Fliss olhou para a porta fechada. O que a duquesa queria dizer? O que ela comeara a contar e depois se recusara a concluir? Era natural que uma me defendesse 
seu filho, Fliss podia compreender isso. Mas havia muito mais que proteo materna na voz da duquesa. Havia certeza, como se soubesse de alguma coisa. De alguma 
coisa que Fliss no sabia. O que seria? Algo relacionado ao pai de Fliss? Ao fato de Fliss nunca ter tido contato com ele? Algo que tinha o direito de saber. Algo 
que s uma pessoa podia lhe contar, se ela tiver coragem para exigir uma resposta.
      O prprio Vidal. E Fliss tinha coragem?
      O descuido da duquesa fez Fliss sentir como se uma porta secreta tivesse se aberto em um cmodo que ela julgava conhecer to bem que no poderia ocultar segredos. 
Era uma experincia debilitante e desconfortvel. Provavelmente no havia o que descobrir, nenhum segredo, nada obscuro para ser temido do outro lado da porta secreta. 
Mas e se houvesse? E se...? O que poderia ser? Vidal mesmo havia dito que interceptara  carta dela ao pai e que ela no deveria voltar a escrever. A evidncia havia 
falado por si mesma. No havia?
      Ela precisava conversar com Vidal.
      Vidal estava em sua sute, Rosa informou a Fliss em tom que sugeria que ele no queria ser interrompido quando Fliss perguntou onde ele estava.
      Sem tempo para mudar de idia, Fliss subiu as escadas. Enquanto subia, sentiu um frio no estmago e os joelhos bambos. Sua boca estava seca pelo receio.
      Enquanto ela caminhou pelo corredor, parte dela queria dar meia-volta e desistir, sua coragem estava quase desaparecendo. A porta para o quarto de Vidal estava 
entreaberta. Fliss bateu hesitantemente e aguardou, e sentiu um alvio covarde quando no houve resposta.
      Ela estava prestes a se afastar da porta quando ouviu Vidal chamar em espanhol de dentro do quarto, em uma voz de comando, pedindo que entrasse.
      Sentindo-se insegura, Fliss girou a maaneta.
      Ela no havia bebido vinho, mas sentia-se tonta. Tonta e muito emotiva.
      A primeira coisa que percebeu quando entrou no quarto e deixou a porta fechar foi que o quarto estava decorado de forma mais moderna que o resto da casa, em 
tons de cinza e creme, e estava mobiliado como um escritrio funcional. A segunda coisa que percebeu era que Vidal estava parado na porta do banheiro, vestindo apenas 
uma toalha e olhando para ela como quem dizia que sua presena no era esperada, nem bem-vinda.
      Incapaz de falar e correndo o risco de trair os prprios sentimentos, Fliss forou-se a olhar para o lado.
      S ento ela percebeu que Vidal pediu que entrasse, mas falou em espanhol, julgando que fosse um dos criados. Ele certamente no estava satisfeito em v-la. 
Fliss podia afirmar pela expresso severa no rosto dele. Para desnimo dela, Vidal estava se afastando.
      - No! - ela protestou, caminhando at ele. Vidal virou-se rapidamente e os dois se chocaram. - Quero falar com voc. Preciso saber de uma coisa.
      - O qu?,
      Por que voc me impediu de me comunicar com meu pai? Era o que Fliss queria perguntar, mas, por algum motivo, disse:
      - Foi mesmo voc quem impediu que eu escrevesse ao meu pai?
      O quarto ficou em silncio, o ar parecia vibrar com a tenso de Vidal. Imediatamente, Fliss soube que ele no esperava ouvir isso.
      - Por que pergunta isso?
      Ela deveria mentir e dizer que era apenas curiosidade? Se ela queria saber a verdade, ento era melhor comear dizendo a verdade a ele. Fliss respirou fundo.
      - Algo que sua me deixou escapar, acidentalmente, me fez pensar que talvez aquilo em que eu sempre acreditei talvez no seja verdade.
      - Quando a deciso foi tomada, foi pensando no que era melhor para voc - Vidal disse obliquamente.
      Ele estava escolhendo as palavras com cuidado, at demais, Fliss percebeu. Muito cuidadoso, como se escondesse alguma coisa ou protegesse algum?
      - Quem tomou essa deciso? - ela exigiu saber. - Tenho o direito de saber, Vidal. Tenho o direito de saber quem tomou a deciso e por qu. Se voc no contar, 
vou perguntar a sua me. E perguntarei at obter uma resposta - ela ameaou ferozmente.
      - Voc no far isso.
      - Ento, me diga! Foi sua av? Meu pai? S pode ser um deles. No havia mais ningum. A outra pessoa envolvida era minha me...
      Fliss estava quase falando consigo mesma, mas o movimento repentino da cabea de Vidal, a tenso em sua mandbula, quando Fliss mencionou a me, revelou a 
verdade, fez com que ela olhasse para ele descrente. Sua voz parecia quase um suspiro quando perguntou:
      - Minha me? Foi a minha me? Diga-me a verdade, Vidal. Quero saber a verdade.
      - Annabel acreditou estar fazendo o melhor para voc - Vidal disse, desviando-se da pergunta.
      - Minha me! Mas foi voc quem trouxe minha carta de volta. Voc... - Fliss sentiu-se fraca com a decepo e o choque -Eu no compreendo.
       Essa aceitao foi um suspiro que fez Vidal querer abra-la e proteg-la, mas ele resistiu. Ele prometeu a si mesmo que permitiria Fliss ter sua liberdade, 
que ele no deveria impor seu amor a ela. Contudo, era difcil v-la assim e no se oferecer para confort-la. Em vez disso, tudo o que conseguiu dizer foi:
      - Deixe-me tentar explicar. Fliss concordou com a cabea, afundando-se na poltrona mais prxima. Seus pensamentos e emoes estavam confusos e, ao mesmo tempo, 
completamente focados no que sua pergunta havia revelado. E havia algo no fato de Vidal estar vestindo apenas uma toalha que despertara seus sentidos, lembrando-lhe 
daquilo que nunca poderia ter.
      - Depois da morte de meu pai, o controle dos assuntos e finanas da famlia passou para minha av. Eu era menor de idade e minha av era minha curadora, juntamente 
com o advogado da famlia. O comportamento de minha av em relao ao seu pai, combinado com a recusa em ajudar sua me financeiramente ou reconhecer voc, deixou 
seu pai bastante transtornado. Seu pai era um homem amvel, mas infelizmente a sade mental dele foi prejudicada pela minha av. Ele foi um historiador amador muito 
dedicado e, quando jovem, queria seguir carreira na rea. Minha av foi contra. Ela disse que no era aceitvel que ele tivesse um trabalho remunerado. Como eu disse 
antes, Felipe foi um homem bondoso e gentil, mas a minha av era uma mulher determinada que no tinha considerao por ningum e pensava estar fazendo o que era 
certo. Ela o atormentou e intimidou a partir do momento em que percebeu que ele queria seguir o prprio caminho na vida. Nunca permitiu que ele esquecesse que ela 
estava tentando fazer o que sua me biolgica queria, e isso o deixava muito culpado e confuso. Foi por isso que ele desistiu facilmente de Annabel, eu acredito 
que foi por isso que ele ficou desolado quando soube da gravidez dela. Felipe queria muito estar com vocs duas. Nunca se recuperou completamente disso.
      Fliss pde perceber a tristeza e o arrependimento na voz de Vidal, e reconheceu que ele se preocupava muito com Felipe.
      - Nunca deixei de sentir culpa pelo meu comentrio impensado que fez minha av questionar o relacionamento de Felipe e sua me. E nunca deixarei.
      Receber essa confisso de Vidal partiu o corao de Fliss; ela viu que ele sofria muito.
      - Voc era uma criana - lembrou ela. - Minha me disse que, de qualquer modo, j havia percebido que sua av suspeitava de alguma coisa.
      - Sim, ela me disse a mesma coisa quando a visitei pela primeira vez depois da morte de minha av. A bondade dela aliviou minha culpa.
      - Quando voc a visitou pela primeira vez? - Fliss questionou. - Quando foi isso?
      Ela percebeu, pelo cenho franzido de Vidal, que ele havia dito mais do que gostaria. Estava poupando as palavras, como se estivesse sendo forado a dizer mais 
do que pretendia dizer, quando respondeu a ela, com relutncia:
      - Depois da morte da minha av, eu visitei Annabel. Como chefe da famlia, era meu dever garantir que voc e ela...
      - Voc foi  Inglaterra para ver minha me? - Fliss interrompeu.
      - Sim. Pensei que ela gostaria de saber de seu pai. O modo como se separaram no foi suave, e havia voc, a filha deles. Queria deixar claro que sua me e 
voc seriam muito bem-vindas se ela decidisse ir para a Espanha. Pensei que ela quisesse que seu pai conhecesse voc.
      Vidal tentava escolher cuidadosamente as palavras. Felicity j havia sofrido muito. No queria lhe causar mais dor.
      Contudo, Fliss adivinhou o que Vidal estava tentando esconder dela.
      - Minha me no quis retornar  Espanha? No queria encontrar meu pai? - ela questionou.
      Vidal defendeu a me de Fliss.
      - Ela estava pensando em voc. Precisei falar sobre o colapso nervoso de Felipe, e ela ficou preocupada com o efeito que isso teria sobre voc.
      - Tem mais, no ? Quero saber tudo - Fliss insistiu.
      Por um minuto, ela pensou que Vidal recusaria. Ele desviou o olhar e olhou para fora da janela.
      - Tenho o direito de saber - Fliss persistiu. Ela ouviu Vidal suspirar.
      - Muito bem, ento. Mas, lembre-se, Felicity, sua me s queria proteger voc.
      - Nada que voc disser mudar o que eu sinto pela minha me - Fliss garantiu.
      E nada poderia mudar o que ela sentia por Vidal. Ele a julgara erroneamente, mas ela fizera  mesma coisa. Contudo, o amor que sentia por ele permanecia o 
mesmo de anos atrs.
      Vidal olhou para ela. Fliss conteve a respirao. Ser que ele conseguia ver o amor nos olhos dela? Rapidamente, ela olhou para baixo, tentando se esconder.
      - Sua me me disse que no queria que houvesse nenhum contato entre voc e o lado espanhol da famlia - Vidal comeou. - Ela me fez prometer que seria assim. 
Inicialmente, ela temia que isso pudesse magoar voc. Era jovem e talvez tivesse uma viso idealizada de seu pai que talvez no condissesse com a verdade. Mais tarde, 
ela passou a temer que voc sacrificasse a prpria liberdade para ficar com seu pai. Eu fiz a promessa que ela me pediu. Ento, quando sua carta chegou...
      - Voc no entregou ao meu pai. Sim, compreendo agora, Vidal. Mas voc no a destruiu? Por que levou at a Inglaterra e... e me insultou?
      A dor na voz dela partiu o corao de Vidal.
      - Pensei que seria melhor discutir a situao pessoalmente com sua me. No quis insultar voc, como disse, simplesmente quis garantir que no escrevesse a 
ele novamente.
      - Voc foi at a Inglaterra s por isso?
      Vidal fez um pequeno gesto de recusa com a mo, como se quisesse empurrar a pergunta dela para longe, e imediatamente Fliss soube.
      - Voc no foi at l s por isso, no ? Havia algo mais.
      Houve outra pausa enquanto Vidal olhou novamente para a janela, antes de voltar-se para ela e dizer:
      - Como eu disse antes, como chefe da famlia senti que era meu dever. Sua me passou por momentos muito difceis, perdeu o homem que amou, e as dificuldades 
financeiras que sofreu antes...
      -Antes de herdar todo aquele dinheiro - Fliss disse lentamente. - Dinheiro de uma tia que minha me nunca mencionou e nunca conheceu. Dinheiro que minha me 
ficou grata em ter, pois me ajudaria muito. Dinheiro para comprarmos uma casa que, como ela disse, era para mim. Dinheiro que fez com que minha me no precisasse 
mais trabalhar. Dinheiro para me mandar para uma boa escola e universidade.
      A mente dela estava analisando freneticamente os pequenos fatos e pistas que, de repente, quando juntos, revelaram a verdade.
      - No havia nenhuma tia rica, no ? - ela perguntou a Vidal. - No havia tia, nem testamento, nem herana. Foi voc. Voc pagou por tudo...
      - Felicity...
      -  verdade, no ? - Fliss exigiu. Ela estava plida. -  verdade - ela repetiu insistentemente. - Foi voc quem comprou a casa, deu uma penso a minha me 
e pagou minha educao.
      - Voc e sua me tinham direito a tudo isso. Estava apenas reparando o mal causado por minha av. Sua me foi relutante em aceitar no comeo, mas eu disse 
a ela, e digo a voc agora, que s aumentaria a culpa da famlia se voc no tivesse ao menos parte do que deveria ter sido seu.
      - Eu estava to enganada sobre voc. - A garganta de Fliss estava seca, ela mal podia falar. - Eu o julguei to mal.
      Ela estava to agitada que se levantou e comeou a caminhar de um lado a outro, apertando as mos em desespero.
      - No, Fliss. Voc simplesmente se enganou na interpretao dos fatos. Isso  tudo. Eu sou culpado por t-la julgado mal. E um julgamento bem pior que o seu.
      - Por favor, no seja gentil comigo - Fliss implorou. - Torna tudo pior.
      S ela sabia o quo pior as coisas podiam ficar. Agora, podia ver quem Vidal realmente era. Agora, podia ver como ele era nobre, decente, e como a vida dela 
seria vazia sem ele.
      - Quero que fique com a casa do meu pai - ela disse a Vidal.- No quero receber dinheiro por ela. E certo que volte a ser parte da propriedade rural. Vou voltar 
para Inglaterra, Vidal. O mais rpido possvel.
      - Felicity...
      Vidal deu um passo em direo a ela, fazendo com que Fliss recuasse. Se ele a tocasse agora, ela desmoronaria. Tinha certeza.
      - No posso ficar aqui.
      - Voc est transtornada. No  sbio tomar decises no calor do momento.
      Enquanto falava, Vidal Se aproximava dela. Mais um segundo, e ele a tocaria. Fliss no podia permitir. No se atreveria.
      Ela deu um passo para trs, esquecendo-se da cadeira. Teria cado se Vidal no a segurasse.
      Ela podia ouvir o corao dele bater, sentir o cheiro quente de sua pele. Ele estava apenas segurando seu brao, mas o corpo inteiro respondeu a ele.
      Fliss tentou afastar-se, mas Vidal segurou-a com mais fora. Ela olhou para ele, os olhos arregalados enquanto ele aproximava a cabea. A respirao dele queimou 
em seus lbios. Um calor sensual inundou seu corpo.
      - No - Fliss protestou, empurrando-o. - No me toque. No posso suportar. Preciso partir, Vidal. Amo voc demais para ficar aqui...
      Horrorizada pelo que acabara de dizer, Fliss encarou Vidal, que parecia uma esttua.
      - O que foi que disse? - A voz de Vidal estava spera.
      Estava furioso com ela, e no  de se admirar, pensou Fliss. Estava perturbando Vidal e fazendo papel de boba.
      - O que foi que disse? - Vidal repetiu.
      Em pnico, Fliss afastou-se, sacudindo a cabea.
      - Eu no disse nada. Vidal aproximou-se dela.
      - Sim, voc disse. - O olhar cor de topzio estava fixo nela. - Voc disse que me ama.
      Fliss no conseguia mais suportar, seu controle estava no limite, seu corao parecia partido. Por que se importar com o orgulho quando j havia perdido tanto?
      Erguendo a cabea, ela disse a Vidal:
      - Tudo bem. Sim, eu amo voc. Os filhos que eu quero ter e quero que conheam sua famlia espanhola so seus filhos, Vidal. No me culpe se no quer saber 
nada disso, se no quer ouvir, voc me obrigou a contar.
      - No quero saber? No quero ouvir o que sempre sonhei em ouvir desde que voc tinha  dezesseis anos?
      - O qu?-Agora, era a vez de Fliss question-lo. - Voc no est falando srio - Fliss protestou.
      - Falo muito srio. Nunca falei to srio na vida - garantiu Vidal. - A verdade  que eu me apaixonei por voc quando voc tinha  dezesseis anos, mas voc 
era jovem demais para o amor de um homem. Seria muito desonroso e errado falar sobre meus sentimentos por voc naquela poca. Prometi a mim mesmo que esperaria at 
voc ficar mais velha, at que fosse madura o suficiente para ser cortejada.
      - Oh, Vidal.
      -  verdade - ele afirmou. - Foi por isso que a julguei mal. Tive cime de que outra pessoa a roubasse de mim. Fui muito injusto com voc, Fliss. No mereo 
seu amor.
      Fliss percebeu que ele estava sendo sincero, e seu corao doa por ele.
      - Sim, voc merece - ela insistiu. - E se eu soubesse, na poca, como voc se sentiu, teria feito de tudo para que voc mudasse de idia.
      - Era o que eu temia - Vidal admitiu ternamente. - Seria errado para ns dois, principalmente para voc.
      Quando Fliss abriu a boca para protestar, Vidal a impediu.
      - Voc era muito jovem. Teria sido errado. Mas ouvir aquele menino gabando-se sobre voc me deixou um pouco furioso, eu acho. Depois disso, disse a mim mesmo 
que a menina que eu amei no existia, que eu a criei em minha imaginao. Disse a mim mesmo que estava feliz com isso, porque, se voc fosse a menina que eu imaginava, 
eu teria perdido o controle e talvez sua me perdesse a confiana em mim.
      - Voc deixou de me amar?
      - Tentei convencer a mim mesmo que sim, mas a verdade  que sempre a desejei. Apenas meu orgulho me afastou de voc, principalmente depois que sua me morreu. 
Voc me assombrava em sonhos e tornou impossvel existir outra mulher em minha vida. Eu me conformei em viver sem amor. Ento, voc voltou. Soube que a impossibilidade 
de amar voc, imposta por meu orgulho, era uma mentira. Amo voc, incondicionalmente. Percebi isso na primeira vez em que estivemos juntos na cama, antes de perceber 
que eu a julguei mal. Eu quis dizer que a amo, mas achei errado fazer voc carregar o fardo do meu amor. Queria que voc tivesse a liberdade de fazer as prprias 
escolhas, sem os problemas do passado.
      - Voc  minha escolha, Vidal. Voc  meu amor e sempre ser.
      - Tem certeza de que eu sou o que voc quer? - Vidal perguntou humildemente.
      - Sim - Fliss respondeu com emoo.
      - Sou seu primeiro amante.
      - O nico que eu quero - ela disse ardentemente. - O nico que eu quis e que sempre vou querer.
      - Espero que esteja sendo sincera - Vidal disse. - No serei generoso e lhe dar uma segunda oportunidade de se afastar de mim. - Ao perceber o olhar de Fliss, 
Vidal a alertou com a voz apaixonada. - No me olhe assim.
      - Por que no? - Fliss questionou em um deboche inocente.
      - Porque, assim, terei que fazer isso - Vidal disse, beijando-a com tanta paixo que Fliss sentiu como se os ossos derretessem com o calor do desejo.
      - Lutamos tanto para no nos amarmos, mas obviamente estvamos destinados a perder essa luta - ela disse ofegante quando ele parou de beij-la.
      - E, perdendo, eu ganhei algo muito mais precioso. Ganhei voc, minha querida - Vidal respondeu antes de beij-la novamente.
      Era uma alegria para ela saber que poderia responder a ele com todo seu corao e com todo seu amor, sabendo que ele correspondia, pensou Fliss enquanto Vidal 
a carregava at a cama.
      - Amo voc - Vidal disse, deitando-a. - Amo voc e sempre amarei.  aqui que nosso amor comea, Felicity. Nosso amor e nosso futuro juntos.  isso que voc 
quer?
      Colocando os braos em volta dele, Fliss suspirou contra seus lbios:
      - Voc  o que eu quero, Vidal. Sempre ser.
      - Quero que se case comigo - disse Vidal. - Logo. O mais rpido possvel.
      - Sim - Fliss concordou. - O mais rpido possvel. Mas, agora, quero que faa amor comigo, Vidal.
      - Assim, voc quer dizer? - ele perguntou suavemente enquanto a despia.
      - Sim. - Fliss suspirou de alegria. - Exatamente assim.
      
      
      
      
      
EPLOGO
      
      
      
      
      - Feliz? 
      Fliss ergueu a mo para tocar o rosto de Vidal, o anel de casamento que ele colocara no dedo dela, menos de 24 horas antes, brilhava na luz do sol. A emoo 
iluminava o rosto dela e respondia, sem palavras, a pergunta de Vidal. Mas mesmo assim ela falou:
      - Mais feliz do que jamais julguei possvel.
      - Mais feliz do que imaginou quando tinha dezesseis anos? - ele brincou gentilmente.
      Fliss riu.
      - Aos dezesseis anos, eu no ousava sonhar em estar casada com voc, Vidal.
      Em algumas horas eles estariam embarcando em um avio privado que os levaria at uma ilha particular, onde passariam  lua de mel. Agora, estavam fazendo uma 
peregrinao especial, refazendo o caminho traado pelos pais de Felicity anos atrs, acompanhados pelo jovem Vidal.
      Partindo de Alhambra, seguiram at Generalife, um lugar famoso no vero, com um jardim aqutico e belas fontes naturais.
      A luz do sol danava nas guas das fontes, e, quando Vidal parou ao lado de uma delas, Fliss olhou para ele com amor nos olhos.
      - Foi aqui que vi seu pai pegar a mo de sua me - ele disse suavemente, pegando a mo de Fliss.
      Quando ela olhou para o centro da fonte, foi como se visse a sombra daquelas duas pessoas,
      - Nosso amor ser mais profundo e mais forte por conhecermos a histria deles - prometeu Vidal. - Ambos gostariam que fssemos felizes.
      - Sim - concordou Fliss.
      Normalmente era impossvel, mas Vidal fez com que a burocracia fizesse vista grossa para que ningum fosse contra eles. Gentil e cuidadosamente, Fliss abriu 
a mo para que algumas ptalas de rosas brancas do buqu do casamento cassem na gua, onde flutuaram calmamente.
      - Libertando-se do passado e dando as boas-vindas ao futuro - Fliss disse a Vidal.
      - Nosso futuro - ele respondeu, pegando-a nos braos. - O nico futuro que poderamos desejar.

249 - Penny Jordan - Tempestade de Vero




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